
FÁBIO
BAHR
6/12
O verdadeiro país do futebol
O tema para essa coluna seria outro. Mas o excelente programa "Histórias do Esporte", a que eu assisti de quarta para quinta, na ESPN Brasil, me fez mudar de idéia. E serviu para antecipar um assunto que eu abordaria mais para a frente: o porquê de o futebol brasileiro, sem dúvida o que tem os melhores jogadores do mundo, não conseguir se tornar fora do campo um exemplo a ser seguido por todos os outros países, como a NBA norte-americana.
Vale citar também como recurso de argumentação a matéria feita pelo não menos excelente André Plihal, da mesma ESPN Brasil, quando da visita do Palmeiras a Garanhuns, para enfrentar o Sport, pelo quadrangular final da série B.
Pois bem, o "Histórias do Esporte" tratou da série C do Campeonato Brasileiro, cuja realidade é completamente diferente daquela vivida por algumas estrelas da primeira divisão. Peço perdão ao repórter pela tremenda injustiça que cometerei, porque não tenho certeza se o seu nome é Roberto Salim. O fato é que ele rodou o país atrás de vários times que disputaram o campeonato, mostrando concentrações, estádios e jogadores pobres sonhando com a fama. E também denúncias de suborno, arbitragens suspeitíssimas e agressões por parte de torcedores e dirigentes, além de atletas enganados por empresários em transações para o exterior.
Cadê a água e os ingressos?
No time do Campinense, vale citar o trecho com o conhecido e veterano Zinho, que defendeu entre diversas outras equipes a Portuguesa, o São Caetano e o Bahia. Próximo à Campina Grande, uma das principais e mais desenvolvidas cidades do interior nordestino, fica o local em que o jogador nasceu.
Em visita à casa dos pais, Zinho contou que começou a trabalhar no garimpo aos 5 anos de idade e que passou fome por causa da grande seca do início da década de 1980, recorrendo à palma para não morrer. Ele revelou a pretensão de se tornar prefeito de sua cidade, prometendo uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão distante: a construção de poços artesianos, especialmente na zona rural. De acordo com as informações, existe água em abundância na região a apenas 15 metros de profundidade. Nem é preciso dizer porque até hoje a água não chega até as torneiras.
Recuando duas semanas no tempo, cito a reportagem de André Plihal em Garanhuns, a “Suíça do Agreste”. Os mesmos problemas e o mesmo clima semi-árido, embora a temperatura seja bem mais amena. Entre os personagens locais, Plihal entrevistou um jardineiro, palmeirense fanático, que não havia conseguido ingresso para realizar o sonho de sua vida: ver o time ao vivo no estádio pela primeira e, provavelmente, única vez na vida. Não apenas porque o ingresso custava R$ 15 e seu salário não passava de R$ 80 mensais. Mas também em razão da tremenda desorganização nas vendas, que fez com que as entradas estivessem nas mãos de cambistas.
Agressões dentro e fora de campo
Voltando ao "Histórias do Esporte", o repórter acompanhou a disputa da segunda partida entre Bragantino e Santo André, valendo uma vaga no quadrangular final do torneio. O estádio Marcelo Stefani, hoje completamente abandonado e deteriorado, já foi palco da decisão do campeonato paulista de 1990, entre Bragantino e Novorizontino. Naquele ano o Bragantino, treinado pelo até então desconhecido Wanderley Luxemburgo e comandado em campo pelo não menos anônimo Mauro Silva, sagrou-se campeão paulista.
Convivendo com a realidade atual da série C, o Bragantino precisava reverter a vantagem de 4 x 1 conquista pelo Santo André na primeira partida. Ao time do ABC paulista foi reservado um vestiário sem iluminação elétrica e com forte cheiro de esgoto. Antes da partida, a equipe foi proibida por um diretor da equipe local de se aquecer dentro do campo.
Quando o jogo começou, o treinador do Santo André, Luis Carlos Martins, foi alvo de cusparadas, jatos de água (?) e chineladas por parte da torcida local. Demonstrando uma calma impressionante, comportou-se como se nada estivesse acontecendo, atendo-se apenas a orientar seu time. No segundo tempo, o goleiro do Santo André cansou de receber pedradas da torcida posicionada atrás de seu gol. Os dois policiais presentes ao estádio assistiam a tudo impassíveis e só tomaram uma atitude mais enérgica quando a partida estava para acabar. Final, Bragantino (eliminado) 3 x 1 Santo André (classificado).
Depois do jogo, já no início da madrugada, o repórter Salim foi chamado a um posto de gasolina da cidade de Atibaia, próxima a Bragança, onde encontrou um jovem cinegrafista de Santo André. O rapaz, assustado, contou que foi vítima de agressão e roubo praticados por seguranças e dirigentes do Bragantino. De acordo com ele, enquanto os seguranças o agrediam, um diretor se apossou de sua câmera. Simples assim. Quando foi prestar queixa na cidade, não recebeu qualquer atenção, ao melhor estilo do velho oeste norte-americano.
Futebol, retrato do país
Portanto, não é preciso filosofar muito para concluir que o futebol nada mais é do que o fiel retrato de um país que ainda é vítima de coronéis e oligarquias, que tem políticos corruptos, direitos básicos ignorados, cidadania desrespeitada, indicadores sociais vergonhosos, violência urbana e a "lei do mais esperto".
Aqueles que, como eu, gostam de futebol e sonham com clubes estruturados e administrações exemplares, terão de esperar muito ainda. Contentando-se com raras iniciativas como as de Zico e Paulo César Carpegiani, que criaram respectivamente o CFZ e o RS, administrados como clubes-empresa. Porque esse também é o país de empresários inescrupulosos, de dirigentes que se aproveitam de times e torcedores, de armações de resultados, de estádios sem as mínimas condições de abrigar uma partida e de jogadores que recebem, quando recebem, salários de fome.
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