
FÁBIO
BAHR
12/12
Um passo para trás
No último sábado, dia 6 de dezembro, o Santos perdeu uma das maiores oportunidades de sua história: a de finalmente trilhar o caminho da modernidade e da auto-sustentação financeira. Com a eleição de Marcelo Teixeira para mais um mandato à frente do clube (o terceiro consecutivo), os associados confirmaram que no Brasil a capacidade de análise e reflexão é muitas vezes ofuscada pelo aparente bom estado de funcionamento de alguma instituição. E podem ter colocado o Santos em um novo período de trevas.
Para quem não acompanha o clube mais de perto, Marcelo Teixeira é o presidente que conseguiu terminar com a fila de 18 anos e devolveu ao santista o orgulho de torcer por uma equipe vencedora. Quem esteve mais próximo sabe que a história não é bem assim.
De acordo com os levantamentos mais “otimistas”, a gastança desenfreada com Rincóns, Edmundos e Marcelinhos da vida, nos primeiros dois anos à frente do cargo, elevou as dívidas do clube para algo em torno de R$ 100 milhões. O valor exato ninguém sabe, o medo é que a Contabilidade do Santos seja uma nova Caixa de Pandora.
A equipe que vem encantando o Brasil há um ano e meio nasceu por força das circunstâncias. Após ser eliminado do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil de 2002, o time ficou parado por quatro meses. Sem dinheiro, Marcelo Teixeira não teve outra saída a não ser apelar para os juniores e outros jogadores sem muita projeção, remanescentes de suas abiloladas contratações. Ninguém podia imaginar que a medida paliativa resultaria em Diego, Robinho, etc.
Velhos métodos
Mas não se trata aqui de julgar erros e acertos. Presidentes erram e acertam como todos nós. O problema está na forma como esses erros e acertos acontecem. E Marcelo Teixeira, apesar de jovem, personifica o velho dirigente brasileiro e a velha política brasileira. Aquele que administra o clube como se fosse sua propriedade, aquele faz trocas de favores que se revertem em ganhos políticos. Há vários exemplos para confirmar essa afirmação. Mas apenas três bastam:
1) Esta lá, no site oficial do Santos (www.santosfc.com.br), que Marcelo Teixeira receberá da Confederação Sulamericana a medalha da Ordem ao Mérito do Futebol Sulamericano. A homenagem parte de ninguém menos do que o próprio presidente da Confederação, o paraguaio Nicolas Leóz.
Este, por sua vez, ganhou em março de 2003 a medalha do Mérito Peixeiro. Em agosto, foi agraciado com o título de Cidadão Santista pela Câmara de Santos. Alguém saberia dizer o que ele fez de tão importante na cidade para merecer tal honraria?
2) Em 2003, o Santos foi um dos clubes que ameaçaram paralisar o campeonato brasileiro como forma de protesto contra o Estatuto do Torcedor.
3) Ainda mais grave do que isso, o presidente conseguiu forçar, por meio do Conselho Deliberativo, a alteração dos estatutos do clube a menos de dois meses da eleição de 2003. Com isso, pôde concorrer novamente ao cargo. Anteriormente, ao mandatário só era permitido disputar uma reeleição.
Oposição x Situação
O candidato da Oposição, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, ao contrário, representava o novo, apesar de ser mais velho que o concorrente (tem 60 anos). Empresário do ramo imobiliário, com passagens pelo setor público (chefe de gabinete do Ministério da Fazenda e diretor administrativo do Banco Central, no final da década de 1980), pregava uma nova maneira de administração não só para o Santos, mas para o futebol brasileiro.
Suas propostas, desenvolvidas em conjunto com a Associação Resgate Santista (que reúne profissionais dos mais diversos setores), não tinham nada de milagrosas. Pelo contrário, são bastante simples e usuais em empresas modernas da iniciativa privada. E por isso mesmo poderiam fazer o clube andar pelas próprias pernas, sem a necessidade de um presidente que disponha de dinheiro do próprio bolso.
As prioridades eram a transformação do clube em empresa e a descentralização do poder, sem esquecer a manutenção da maior parte do atual elenco. E o mais importante, um intenso trabalho de marketing, aproveitando o que representa a marca Santos Futebol Clube mundo afora.
Já Marcelo Teixeira baseou sua campanha na promessa de manutenção do elenco e do técnico Emerson Leão, que, aliás, foi seu maior cabo eleitoral. Passada a eleição, porém, a missão de manter a equipe parece cada vez mais difícil, já que a cada dia aumentam os comentários de possíveis negociações de alguns atletas, como Alex, Renato e Diego.
Transparência
Alguém pode perguntar: mas que garantia eu tenho de que Luis Álvaro e a Associação Resgate Santista fariam do Santos um clube estruturado e vencedor? A resposta é nenhuma. Mas tenho absoluta certeza de que seria uma administração no mínimo transparente, o que já é muito nesse país judiado há cinco séculos por seus mandatários.
E antes que alguém me acuse de fazer parte da oposição, informo que, apesar de conhecer pessoalmente Luis Álvaro, não tenho qualquer vínculo com ele. Nem teria cargo ou outro tipo de vantagem com sua vitória. Simplesmente, sou santista e quero o melhor para o meu time. Não só para o meu time, mas para o esporte que ainda é o maior cartão de visitas do Brasil no exterior.
VOLTAR PARA ARQUIVO DE "FÁBIO BAHR"