FÁBIO
BAHR







19/12

A volta das “organizadas”?

Era só o que me faltava. Em uma das raríssimas vezes em que abriu a boca publicamente, o presidente da Federação Paulista de futebol, Marco Polo Del Nero, sugeriu a volta das torcidas organizadas aos estádios paulistas. Para quem não sabe, Del Nero assumiu o cargo no lugar de Eduardo José Farah, afastado desde meados de 2003 (dizem que o Ministério Público, depois das CPIs do ano passado, estava chegando muito perto dele).

A alegação do novo presidente em favor das torcidas: a festa que elas fazem nos estádios. Pronto, voltamos ao tempo do populismo. Só falta agora ele participar das festas de confraternização de fim de ano dessas “agremiações”, sambando e comendo churrasco.

Justiça seja feita, ele defende a volta das organizadas após cadastramento de todos os integrantes, punição exemplar aos baderneiros e até tribunais de pequenas causas nos estádios. Só por curiosidade: estaria ele imaginando morar na Suíça ou é só um discurso ensaiado?

É preciso dizer que além dessa forcinha oficial, a mídia também tem sido mais do que condescendente com as “organizadas”, especialmente algumas rádios de São Paulo. Nos últimos jogos do Palmeiras disputados fora de casa, no quadrangular final da série B, a presença de emissoras na quadra de uma dessas instituições era sempre obrigatória. Curiosamente, integrantes dessas rádios diversas vezes recebem prêmios de “melhores do ano”, concedidos pelas torcidas.

Circulo vicioso

Todos os anos é a mesma lenga-lenga: brigas fora dos estádios, principalmente em locais mais afastados, que resultam em morte de um ou mais integrantes; matérias nas TVs mostrando o drama de mais uma família que perdeu “um jovem trabalhador, que queria apenas se divertir e torcer”; reuniões de representantes das torcidas com o comando da polícia, prometendo que as brigas não irão mais acontecer; presença dos dirigentes das torcidas em programas de TV, pregando a paz; período de calmaria; e o recomeço do ciclo algum tempo depois.

Outros tempos

Para que se possa entender as torcidas organizadas, é preciso voltar uns 30 anos no tempo, quando as primeiras foram formadas. Nesse período, o mundo era outro. O medo da violência se resumia ao temor de uma carteira surrupiada, com classe, no centro das grandes cidades. E o intuito das torcidas organizadas era o de realmente ser apenas um adendo ao espetáculo proporcionado por craques como Pelé, Ademir da Guia, Rivelino, Pedro Rocha, Falcão, Zico, Roberto Dinamite, Tostão, Dadá Maravilha e outros, muitos outros.

Nos estádios, lotados com muito mais freqüência do que hoje, rojões espocavam vários minutos sem parar (sempre para cima) e bandeiras tremulavam por todos os lados. Brigas haviam, é claro, mas raramente e entre vizinhos de lugares, já que não era necessário separar torcedores adversários.

Desvirtuamento

Com o decorrer dos anos, no entanto, as torcidas foram crescendo sem qualquer controle e, especialmente a partir da segunda metade dos anos 80, se desvirtuaram, tornando-se instituições à parte dos clubes. Passaram a gritar seus nomes nos estádios, ao invés do nome do time. E violência tornou-se sua razão de ser, como comprovam os gritos de guerra, os próprios nomes e os fatos.

Os dirigentes dos clubes perceberam a força que essas facções representavam e começaram a oferecer ingressos gratuitamente, espaço para sede dentro dos clubes, ônibus “na faixa” para viagens Brasil afora e outras mordomias. Em troca? Votos e trabalho nas “bases”, não só para eleições internas como também para cargos públicos.

Não se pode esquecer também que bandidos, das mais diversas especialidades, enxergaram nelas um ótimo refúgio. Além disso, é preciso considerar o declínio dos indicadores sociais, o gradual inchamento das cidades e o confinamento dos excluídos em guetos nas periferias.

A Antropologia e a Sociologia explicam, muito melhor do que essa filosofia barata de botequim, a procura de um grupo por parte daqueles que não recebem qualquer tipo de assistência, de um local em que eles possam ser aceitos e exercer sua cidadania, ainda que da maneira mais distorcida possível. E também o que acontece quando uma turba recebe a todo momento mensagens a favor da violência – diversas reportagens mostraram como era o ritual de batismo de um novo torcedor.

Proibição

No início da década de 1990, os episódios de brigas violentíssimas intensificaram-se. Tiros e mortes por espancamento, com requintes de crueldade, tornaram-se rotina nas cidades. Carregar bombas caseiras, armas e drogas para os estádios, também.

Em São Paulo, o conflito campal do Pacaembu em 1995, entre torcedores de São Paulo e do Palmeiras, resultou em mais uma morte e na proibição das organizadas por parte do Ministério Público.

A partir de então, os dirigentes das uniformizadas viraram figurinha carimbada em alguns programas de TV, sempre com o mesmo discurso de paz, atos pelo fim da violência e até o desenvolvimento de ações sociais. Sem contar que creditaram o esvaziamento dos estádios à proibição de entrarem com seus aparatos de “festa”.

Ao mesmo tempo, porém, as organizadas entravam disfarçadas nos jogos, ocupavam os mesmos lugares e continuavam a promover arruaças, dentro e fora do estádio, principalmente em locais das periferias. Em pouco tempo elas voltaram, com outros nomes e os velhos hábitos de violência.

É claro que não se pode, sob hipótese alguma, culpar os dirigentes das organizadas por todos os atos de violência. Mas é preciso lembrar que muitas delas congregam dezenas e até centenas de milhares de associados. O que faz com que seja impossível para esses dirigentes controlar a horda em transe coletivo.

Mas tudo bem. São Paulo tem Marco Polo Del Nero. Com ele no comando e as organizadas nos estádios, a festa vai rolar.


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