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Ídolos no Brasil: por que apenas no final da carreira?

Curtindo os feriados de final do ano no Brasil, Roberto Carlos disse a jornalistas que pretende renovar contrato por mais quatro ou cinco anos com o Real Madrid e, depois, encerrar sua carreira no Santos. Na mesma semana, Mauro Silva foi entrevistado pela Rádio Bandeirantes e declarou ter o sonho de pendurar as chuteiras jogando pelo São Paulo. Caso esses desejos se realizem, a questão que ficará é: quem vai fazer favor para quem?

Contestar o talento de Mauro Silva ou Roberto Carlos seria estupidez. Mais do que vencedores e excelentes atletas, os dois ajudaram a engrandecer a imagem do brasileiro no exterior. Mauro, há 12 anos no La Coruña, é reverenciado e adorado na Galícia. Comportando-se e agindo como um lorde, ele provou, e continua provando, que o atleta brasileiro não é aquele sujeito malandro, que sacaneia os outros e que não gosta de treinar. Superou uma barreira ainda maior por ser negro, pois, como se sabe, a Europa não é um dos locais mais simpáticos aos negros. Roberto, por sua vez, é ídolo não só em Madri, ele é reconhecido e idolatrado em todos os cantos do planeta.

Mas ao afirmarem que querem “encerrar a carreira” nos seus clubes que torciam quando crianças, eles fazem um desserviço, como se Santos, São Paulo ou qualquer outro clube brasileiro precisassem da caridade ou da consideração deles. Ou necessitassem de jogadores de sua estatura para ficar ainda maior e aparecer na mídia mundial. Se esses jogadores realmente amam essas equipes, por que não vêm agora ou então não vieram antes, no auge da forma física e técnica? Por que só no final da carreira, com a condição atlética debilitada?

É preciso considerar ainda que mesmo hoje, no esplendor, Roberto Carlos não seria unanimidade no Santos, pois Léo é um dos principais ídolos da torcida santista (que curte o melhor time depois da era Pelé). Imagine daqui a quatro ou cinco anos, quando evidentemente as condições do lateral pentacampeão estarão bastante reduzidas.

Mauro Silva também não seria aceito facilmente pela torcida tricolor atualmente, com seus 34 anos. Que dirá em um ou dois anos. A vantagem em seu caso é que o São Paulo passa por uma reformulação total e seus torcedores não andam muito satisfeitos com os times montados nos últimos anos. Mas não se pode esquecer que os esquemas táticos utilizados no Brasil e na Espanha são diferentes. Lá, ele joga quase como um terceiro zagueiro, não precisa correr tanto. No Brasil, parece que finalmente está de volta a tendência de volantes que saem para o jogo e chegam na área, e que por esse motivo precisam de um vigor físico maior.

Exemplos europeus

Na Europa, clubes que tiveram experiência similar se deram mal. Um bom exemplo é o zagueiro Hierro, que estava havia mais de 15 anos no Real Madri e chegou à óbvia conclusão de que não servia mais para o time. Idolatrado até 2002, passou a cometer erros bisonhos e comprometeu a performance da constelação merengue, principalmente na Liga dos Campeões do ano passado. A torcida só não o escorraçou por causa do respeito pelo ídolo, que dedicou sua vida ao maior campeão europeu. O clube também não se manifestou. Mas sua reputação como jogador ficou arranhada. Por isso, preferiu sair no meio de 2003 e dar lugar a zagueiros em melhores condições.

Costacurta, de 37 anos, vive situação parecida no Milan. Desde 1987 na equipe rubro-negra, teve em dezembro uma fraca atuação na final do mundial interclubes contra o Boca Juniors (jogou ao lado do também veteraníssimo Maldini). Na decisão por pênaltis, chutou o chão a atrasou a bola para o goleiro argentino. Resultado: Boca campeão. Será que ele concluiu que já fez muito pelo time e é hora de parar? Ou seu amor pelo time de San Siro lhe concede o direito de atrapalhar?

Exemplos brasileiros

No Brasil, alguns casos recentes poderiam servir de inspiração a Roberto Carlos e Mauro Silva. Começando por Careca. Depois de encantar o mundo e encher de orgulho as torcidas de Guarani, São Paulo e Napoli, queria a qualquer custo encerrar a carreira no Santos. Um garoto que estivesse começando a acompanhar futebol e o visse jogando no alvinegro, em 1997, não acreditaria que aquele foi um dos maiores centroavantes da história – e o maior, ao lado de Van Basten, que eu vi jogar. Era digno de pena.

O mesmo ocorreu com Bebeto: em sua volta ao Brasil, resolveu enganar no Vitória e no Vasco, suas grandes paixões. O máximo que conseguiu foi jogar lama em sua carreira vitoriosa. Seria o mesmo que Falcão (um dos cinco maiores que vi jogar), depois da passagem apagada que teve em 1986 pelo São Paulo, demonstrar o desejo de parar atuando pelo Inter. Ou Zico, aos 40 anos, fazer o mesmo no Flamengo. E assim por diante.

Portanto, Roberto Carlos, Mauro Silva e outros, pensem bem antes de fazer a mesma besteira. Porque os clubes brasileiros não precisam de favor e nem são instituições de caridade.


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