
FÁBIO
BAHR
30/1
Aberta a temporada de caça às bruxas
A imprensa esportiva brasileira é realmente engraçada. Parece aquela história de que o primeiro negócio mais lucrativo do Brasil é um banco bem administrado; o segundo é um banco mal administrado. No caso da imprensa, são dois assuntos preferidos: o primeiro é a seleção brasileira campeã de competições importantes; o segundo é a seleção brasileira dando vexame em competições importantes – esse conceito pode ser estendido para os grandes clubes: nada como um título ou uma “crise” no Corinthians ou no Flamengo.
Consumado o vexame brasileiro no pré-olímpico, começou a caça às bruxas, nos mesmos moldes que os da Inquisição. E também a falta de coerência. A mesma imprensa que exaltava em matérias especiais o bom ambiente do grupo por causa do bom humor, agora condena o “excesso” de brincadeiras por parte de garotos recém-saídos da adolescência. Só fico imaginando o que aconteceria se houvesse um clima sério e a seleção também perdesse. As manchetes estampariam em letras garrafais: “seleção estava rachada!”.
A mesma imprensa que cometeu o crime de comparar Robinho a Pelé, chamando-o até de Robson Arantes do Nascimento, agora diz que o menino não passa de firuleiro, que não sabe chutar e que não é decisivo.
A mesma imprensa que fez matérias especiais elogiando a maturidade de Diego e seu comportamento que servia de exemplo para muitos veteranos, agora diz que ele não passa de um garoto arrogante, mimado e deslumbrado com a fama.
A mesma imprensa que elogiava a CBF pela decisão de fugir dos mesmos nomes de sempre para dar chance a um técnico promissor, porém vencedor (campeão no Paris Saint Germain), agora diz que foi uma pisada na bola nomear como treinador alguém sem experiência para comandar uma jovem seleção.
A mesma imprensa que dizia ser correta a decisão de o técnico da seleção principal não ser o mesmo da pré-olímpica (vide o desgaste de Luxemburgo com a derrota para Camarões em Sidney-2000), agora diz que foi um erro crasso Parreira não comandar o grupo, citando como exemplo a seleção argentina campeã do pré-olímpico e comandada por Marcelo Bielsa – aquele mesmo, responsável por uma das maiores decepções da história do país, na última copa do mundo.
Pior é ver nos programas esportivos os sábios de plantão arrotando, depois que o torneio acabou: “no jogo contra a Argentina eu já sentia que havia alguma coisa estranha...”. Ou “depois da festa que os jogadores fizeram contra o Chile, era óbvio que perderiam do Paraguai...”.
Vale lembrar que na transmissão da Globo do primeiro jogo do Brasil na competição, contra a Venezuela, uma das perguntas que a emissora diz partir dos internautas foi: “Essa é a melhor seleção olímpica já formada?”. A resposta unânime de Galvão Bueno, Casagrande e Arnaldo César Coelho foi “sim”. Próxima pergunta: Quem sai do time para a entrada do Kaká nas olimpíadas? Ninguém foi enfático a respeito do candidato a esquentar o banco, já que esse era um “timaço”.
Três semanas depois e pesquisas e mais pesquisas nos sites esportivos colocam com todas as letras: “Quem é o maior culpado pelo fiasco da seleção pré-olímpica?”.
Sugiro invertermos um pouco a situação. Jornalista (eu me incluo nesse time) tem a mania de julgar a tudo e a todos, por qualquer coisa. Brinco, cor de chuteira, cabelo assim ou assado, pose pra lá ou pra cá, tatuagem, terno, agasalho, tudo, absolutamente tudo, serve como pretexto para se esculhambar alguém.
Só que jornalista, que também é figura pública, não aceita o troco na mesma moeda. Experimente um jogador – que numa hora é perna-de-pau e na outra, herói, além de ter sua vida pessoal devassada –, criticar um jornalista, dizer que ele não sabe nem escrever ou falar direito. Ou, pecado dos pecados, recusar-se comparecer a uma mesa redonda dominical, porque não gosta do programa e acha o jornalista ruim e fraco. Este jogador será perseguido até o fim de seus dias.
Não estou aqui querendo dizer que a seleção fez um bom papel na competição, muito pelo contrário. Foi um fiasco enorme, principalmente para um time formado por jogadores que os jornalistas (eu me incluo nessa) apontavam como representantes da melhor geração da história do nosso futebol.
Só estou querendo dizer que os jornalistas (eu me incluo nessa), que têm mania de criticar a tudo e a todos como se tivessem um comportamento ilibado e fossem imunes (e impunes) a erro, deveriam se colocar também entre as alternativas dos culpados pelo fracasso da seleção nessas pesquisas para a caça às bruxas. Teriam meu voto.
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