
FÁBIO
BAHR
11/2
Os “marqueteiros” e o futebol
Passou quase despercebida pela grande mídia, a não ser por pequenas notas, aquela que pode ter sido uma das maiores iniciativas tomadas no futebol brasileiro nos últimos tempos: a contratação de Duda Mendonça pelo Flamengo, ocorrida na semana passada. Quem não o conhece poderia perguntar: em que posição ele joga, de que time ele veio?
Mestre do marketing político, Mendonça ajudou a eleger de Paulo Maluf a Lula e provou ser um dos maiores craques não só do Brasil como do mundo. E o marketing é, talvez, a única saída viável para o os clubes brasileiros e para o futebol em geral.
O problema é que são poucos os que dominam essa área. Há algum tempo, pensava-se que marketing era colocar patrocínio na camisa, como se Armarinhos Fernando e Afonso Veículos pudessem “agregar valor”, expressão típica desse meio, a Portuguesa e Santos – só para ficar em dois exemplos dos anos 80. Na década seguinte, a Parmalat chegou ao país com um novo conceito dessa ferramenta, montando verdadeiros esquadrões no Palmeiras (se bem que passados pouco mais de 10 anos descobriu-se que a empresa tinha outros interesses que não apenas ajudar um clube de origem italiana).
Hoje, praticamente todos os grandes clubes têm departamentos de marketing. Mas suas ações são, na maior parte das vezes, ineficazes ou pequenas em comparação ao gigantismo que representam, ou deveriam representar, nossas equipes no cenário mundial. O máximo que tratam é do licenciamento de produtos, incluindo venda de camisas oficiais a preços exorbitantes.
Enquanto isso, na Europa algumas equipes mostram ao mundo o que é de fato um trabalho de marketing. Dois exemplos são suficientes para mostrar o que alguns clubes têm feito nesse campo. O primeiro, e mais óbvio, é a contratação de Beckham pelo Real Madri. Não são muitos os que rebatem a afirmação de que o inglês é apenas um bom jogador, mais conhecido pelo que faz fora de campo do que dentro.
Mesmo assim, ninguém contesta que ele vale muito mais do que os cerca de 40 milhões de dólares investidos pelo time de Madri. Só a pré-temporada que a equipe fez na China, em meados do ano passado, rendeu um quarto do valor pago pelo jogador. Sem contar camisas e outros produtos licenciados, ao redor do mundo, com a imagem do “Spice Boy”.
O segundo exemplo vem do Manchester United. Há poucos dias, os "diabos vermelhos" contrataram o jogador chinês Dong Fangzhuo por 5 milhões de euros. Embora o atleta seja apontado como uma grande promessa, ninguém tem dúvidas de que o interesse do Manchester não é pelo que o chinês faz com a bola e sim agradar (e abrir) o mercado que tem tudo para ser um dos maiores do mundo, senão o maior, em poucos anos. Como fez o próprio Real Madri durante a pré-temporada.
Quem já esteve na Europa sabe que o futebol brasileiro, embora seja aclamado como o melhor do mundo, raramente tem seus campeonatos noticiados nos principais jornais locais ou transmitidos nas televisões. Em compensação, aqui no Brasil somos brindados a cada fim de semana com transmissões ao vivo das principais competições européias. Geralmente o nível técnico deixa a desejar, mas ficamos empolgados com tudo o que cerca cada evento. Espacialmente os estádios lotados, mesmo em partidas de times intermediários ou pequenos. Sim, o marketing tem uma grande parcela de “culpa” nisso.
Um trabalho bem feito pode não só levar nossos campeonatos para fora como ajudar a segurar nossos craques. Hoje isso não ocorre porque o Brasil continua a ser a Colônia, exportando nossas riquezas (nossos craques) por preços ridículos à Metrópole (Europa, Japão e Coréia). O marketing pode ajudar a encher os cofres e pôr fim a essa exploração.
A iniciativa inédita do Flamengo de pegar um peso pesado como Duda Mendonça poderia ser imitada, sem qualquer constrangimento, por outros clubes. Fico imaginando se a “guerra entre os marqueteiros”, que estamos nos acostumando a ver a cada eleição, se transferir para o futebol. Os clubes só têm a ganhar. Principalmente porque um clube de futebol com uma imagem rejuvenescida e forte é muito menos perigoso do que um político mal intencionado. Além disso, o futebol tem espaço para diversos times ao mesmo tempo, ao contrário de uma disputa de um cargo majoritário, em que só um candidato pode ganhar e toda a população perder.
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