FÁBIO
BAHR







19/3

O dia de São Pelé

A tal lista dos melhores do mundo do Pelé já deu tudo o que tinha que dar, nem vale a pena mais comentá-la. Mas se juntarmos esta a todas as outras pisadas na bola do cidadão que representou um personagem único e que será para sempre insuperável, é de se pensar se não seria melhor Edson Arantes do Nascimento vir a público enquanto é tempo e declarar: Pelé morreu. São tantas, mas tantas mancadas, incluindo negócios no mínimo suspeitos, que fica difícil saber quem é o Edson e quem é o Pelé.

O grande problema é que não é de uma hora para outra que se declara a morte de um mito, ainda mais quando a pessoa que o criou, o Edson Arantes do Nascimento, está viva.

Pensando bem, há uma solução: ele poderia, ainda como Pelé, conseguir uma audiência com o Papa, em Roma (isso é fácil para alguém com o prestígio dele), e discutir não só a sua beatificação, como também a criação de um dia dedicado a São Pelé. O melhor é que, ao contrário dos outros santos, há milagres do Rei registrados em vídeo. Muitos, inclusive, estarão em breve nos cinemas.

O dia de São Pelé cairia entre agosto e setembro, para não concorrer nem com a Páscoa e nem com o Natal. Daria margem à criação de um personagem mítico, como o próprio Pelé. Esta nova figura poderia, inclusive, juntar as duas características do coelhinho da Páscoa e do Papai Noel. A data seria considerada feriado mundial. As crianças esperariam, ansiosas, a chegada do “Bom negão”*, que distribuiria bolas de futebol de chocolate para elas. Com a vantagem de que, quando as crianças perguntarem se São Pelé realmente existiu, os pais responderão orgulhosos, sem o risco de mentir, que "sim".

E o melhor é que daqui a 50, 100 anos, quando o original não estiver mais na Terra, o dia de São Pelé irá gerar empregos. Igual ao Natal. Pessoas das mais diversas cores, nacionalidades e religiões poderão vestir uma camisa 10 do Santos ou do Brasil e ficar sentadas em Shoppings Centers.

Entretanto, e mais importante, Edson Arantes do Nascimento se comprometeria a seguir uma condição básica para sua beatificação: enquanto estiver vivo, ele teria o direito de ser Pelé apenas um dia por ano, mais precisamente no seu dia santo. Faria previsões sobre favoritos da copa, apontaria seu sucessor, divulgaria listas de melhores jogadores e fecharia contratos de publicidade com seu nome. E ainda assim encontraria tempo para cuidar das criancinhas. Nos outros 364 dias ficaria calado. Ou melhor, daria lugar ao Edson.

O mesmo Edson que consegue ser inacreditavelmente mal assessorado há décadas e cometer pecados que só são perdoados porque é difícil separar o Pelé do Edson (o que não aconteceria com a instituição do dia de São Pelé). Há pelo menos vinte anos, Edson (ou Pelé?) já descobriu, ou deveria ter descoberto, que qualquer coisa que ele faça, por menor que seja, ganha repercussão mundial. Mas ele insiste em passar a imagem de que todas as suas falhas são por ingenuidade. E continua se fazendo de santo. Para isso, nada melhor que o dia de São Pelé.

*Como infelizmente estamos vivendo em tempos de politicamente correto, é bom ressaltar que o termo “Bom Negão” é apenas uma brincadeira com o termos “bom velhinho”, como é conhecido o Papai Noel, e “Negão”, apelido de Pelé.


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