
FÁBIO
BAHR
27/3
O “antipatriota” Guga
Interessante a polêmica sobre a não participação de Gustavo Kuerten da Taça Davis enquanto o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Nelson Nastás, não pegar o boné e se mandar da entidade. No início do movimento, Guga foi elogiado por todos. Agora, começa a receber críticas dos mais variados setores, principalmente de pessoas que não entendem patavina de tênis, que muitas vezes não sabem nem o que é um match point, mas que nem por isso se calam diante de sua retumbante ignorância.
É bom lembrar que Nastás prometeu, apenas prometeu, eleições na confederação daqui a dois meses e não concorrer ao cargo. Mas não deu nenhuma garantia por escrito de que cumprirá a promessa. Além dos leigos em tênis, as críticas vêm também de jornalistas e esportistas que se dizem patriotas. Acusam um dos maiores ídolos brasileiros de todos os tempos de “antipatriota”. Afinal, dizem, “o presidente já disse que sai, que mais o Guga quer?”.
Eu acho engraçado quando ouço críticas de gente contestando o patriotismo desta ou daquela pessoa. Quer dizer que ser conivente com uma situação que nós, que estamos fora do mundo do tênis, não conhecemos nem a ponta, é ser antipatriota? Querer mudar um estado de coisas erradas é ser antipatriota?
Será que um cara absolutamente desconhecido, sem apoio oficial, praticante de um esporte marginalizado no país, que de uma hora para outra assombrou o mundo com suas roupas com as cores do país e uma vitória em um Grand Slam não é patriota? Um cara que pede que seja feito um trabalho de divulgação do tênis, para que quando ele pare possa ser substituído por outros ídolos não é patriota? Alguém que ajudou a mudar no exterior a imagem do brasileiro, até então conhecido pela malandragem e pelo jeitinho, não é patriota?
Vale ressaltar que Guga é um dos tenistas mais respeitados pelos adversários do circuito profissional e pela torcida de todos os cantos do planeta por seu “fair play”. O “Manézinho” reconhece humildemente quando uma bola duvidosa foi boa, passando o pé sobre a marca na linha; pede desculpas ao adversário quando consegue um ponto com a ajuda da fita; é atencioso com os milhares de fãs que pedem autógrafo; consegue se comunicar em vários idiomas; é um exemplo de filho e irmão dedicado. E não existe ser vivo na face da Terra que não saiba que aquele cara é brasileiro.
Por outro lado, será que são patriotas aqueles que defendem que Guga jogue a Davis, mesmo que isso signifique que as coisas possam ficar exatamente iguais? Dizem que a não participação brasileira pode significar uma dura punição ao país, como uma suspensão de alguns anos. Ou, se Guga não jogar e o Brasil, com tenistas menos talentosos, perder o confronto para o Paraguai, poderá cair de divisão.
A pergunta que eu faço é: e daí? Não vale pagar um preço maior por uma atitude que talvez signifique mudanças estruturais radicais não só no tênis, mas que possa ser seguida por outros esportes e até, por que não, outras áreas?
Isso me faz lembrar a época das CPIs do futebol, que provaram por A + B o envolvimento de gente graúda em esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito. Na hora de se tomar uma atitude mais drástica, como a intervenção federal, alegou-se que a Fifa poderia tirar o Brasil da Copa do Mundo caso o governo se envolvesse. E daí? Alguém iria morrer por causa disso?
Mas não, os “patriotas” acham mais importante o Brasil jogar a Copa e o Guga participar da Davis, deixando as coisas como estão, do que dar um choque de credibilidade, independência e ver o quanto são capazes de fazer pessoas com vontade de mudar para melhor.
Talvez esteja aí o motivo de o Brasil ser, ainda em 2004, apenas “o país do futuro”. Seu povo “patriota” comemora o título de uma copa do mundo ou uma vitória na Taça Davis. Seu povo é “patriota” porque aceita o Pão e Circo.
É por isso que, na minha opinião, a melhor definição sobre patriotismo continua sendo a do pensador e político inglês do século XVIII, Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.
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