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A “coerência” do Parreira e o britânico Edu

Que o Parreira é vencedor e entende de futebol, todo mundo sabe. Que é chato, ranzinza, teimoso e retranqueiro, também. Mas dessa vez ele se superou. A convocação para mais um amistoso caça-níqueis, dessa vez contra a inexpressiva Hungria (outrora uma das maiores potências futebolísticas do mundo) vai contra toda a lógica e coerência, ainda que contestáveis, que ele sempre apregoou e apresentou.

Bastou o Edu, do Arsenal, manifestar o desejo de se naturalizar britânico e defender o English Team que lá foi o Parreira e o convocou para o “Brazilian Team”. Não duvido nada, mas nada mesmo, que o ex-corintiano esquente o banco de Budapeste por 85 minutos, jogue outros cinco e nunca mais seja chamado pelo nosso técnico. E perca assim a possibilidade de defender a seleção inglesa, onde teria tudo para escrever uma belíssima história.

Segundo os estatutos da Fifa, um jogador nascido em um país pode se naturalizar por outro e defender a seleção local desde que nunca, nem mesmo nas categorias infantis, tenha defendido o selecionado de sua nação de origem. Um minuto em campo por uma seleção nacional fraldinha basta para impedir esse processo. Confesso que não sei o que acontece se ele ficar apenas no banco e não entrar em campo.

Edu é desses casos raros de jogadores brasileiros com QI pouco mais elevado que ajudam a elevar o conceito do brasileiro lá fora. Extremamente profissional, correto, inteligente e bom caráter, chegou de mansinho ao time de Arsene Wenger e virou titular absoluto, formando o meio-campo ao lado de Gilberto Silva. Além disso, está aproveitando a chance que a vida lhe deu para se aprofundar culturalmente em terras estrangeiras.

Apesar de eficiente, não acho que seja jogador para ser titular do Brasil, em razão das diversas outras opções que temos. E tenho certeza que não será. Por isso mesmo, deveria ser esquecido pelo Parreira, porque é o tipo de atleta que se encaixaria como uma luva na seleção inglesa. A equipe de Beckham e companhia não tem outro volante do mesmo estilo e nível de Edu. Uma pena, para ele, que Parreira faça essa sacanagem. Se fosse eu, recusaria a convocação e apressaria a naturalização.

A convocação de Mancini também é absurda. Não pelo que vem jogando no Roma, onde é um dos destaques da equipe. Mas porque há pouquíssimo tempo Parreira disse que o ex-jogador de São Caetano e Atlético Mineiro não poderia ser convocado para a lateral, já que na Itália atua como ala avançado, quase um ponta-direita. E eis que na relação dos laterais direitos da seleção lá está Mancini.

E o Roque Junior então? Reserva no medíocre Siena, é nome constante nas convocações. Já o Rivaldo, que assim como o zagueiro não vem entrando em campo, foi definitivamente escanteado. Cadê a lógica?

Já as convocações de Bordon e Dedê são válidas como teste, afinal é um amistoso. Além disso, ficarão sentadinhos no banco durante toda a partida, pois para Parreira + Zagalo é demais convocar um atleta pela primeira vez e ainda colocá-lo em campo. Vai que o time toma uma traulitada e o valor da cota para as próximas partidas cai. Titio Ricardo Teixeira não iria gostar nem um pouquinho.

Enfim, Parreira finalmente fugiu do script e surpreendeu. Coerência, embora eu discordasse dela, ele tinha. Agora, nem isso ele tem mais. E de quebra pode estragar a carreira internacional de um jogador. Só falta agora o treinador campeão da copa de 1994 convocar o Ailton, do Werder Bremen.

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