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FUTEBOL NA REDE (Humberto Peron)

Coluna publicada em 4 de julho de 2008

O título quase esquecido

Foi emocionante a comemoração dos cinqüenta anos da nossa primeira conquista em Copas do Mundo. Foi muito bom rever imagens dos jogos na Suécia e saber como ganhamos aquele mundial. É lógico que na esteira dessa comemoração fomos lembrando dos nossos outros títulos e fizemos comparações entre as seleções que conquistaram os mundiais.

Falamos do time fantástico do tri, do esforçado e aguerrido que conquistou a Copa do Mundo de 1994 e do time de Luiz Felipe Scolari que conquistou o penta no Japão. Várias enquetes são feitas para descobrir qual a nossa melhor seleção. (Confiram minha resposta). Mas o time que conquistou o bicampeonato no Chile quase nunca é citado. Na pesquisa que a Folha Online fez perguntando qual era a seleção preferida entre os times que foram campeões mundiais, a equipe de 1962 está em último lugar, com apenas 2% dos votos.

A pequena lembrança desse título é uma tremenda injustiça. Talvez seja justificada pela equipe base ser quase a mesma que conquistou o Mundial da Suécia, quatro anos antes. Do time titular que disputou a final em 1958, oito jogadores foram titulares na final de Santiago. Saíram a dupla de zaga titular Bellini e Orlando. Eles deram lugar a Mauro e Zózimo - que estavam entre os 22 convocados na primeira conquista -, e Pelé, que, contundido durante a competição, acabou substituído por Amarildo. Temos a lembrança de milhares de fotos de Bellini erguendo a Taça Jules Rimet em 1958, mas são raras - e pouco lembradas - as imagens que mostram Mauro repetindo o gesto quatro anos depois.

Também trocamos de técnico. No lugar de Vicente Feola, que foi afastado do cargo por problemas médicos, tínhamos no banco Aymoré Moreira. Aliás, nosso treinador no bicampeonato mundial deve ser sempre lembrado com um técnico que conhecia muito da parte tática.

Não é errado dizer que a conquista do Chile foi muito mais difícil que o titulo na Suécia. Uma das razões disso é que o time estava mais velho. Tinha a vantagem de ter experiência, mas contava com muitos jogadores que tinham mais de 30 anos, como por exemplo os laterais Djalma Santos e Nilton Santos e o meia Didi. Sem o mesmo vigor físico, o time tinha que jogar num ritmo mais cadenciado.

Também tivemos adversários difíceis. Na primeira fase, depois de vencermos, sem empolgar, o fraco time do México, sofremos para empatar com a Tchecoslováquia por 0 a 0. O jogo ficou dramático depois que Pelé, ainda no primeiro tempo, sofreu um problema muscular após arrematar contra o gol do adversário. A contusão dele causou grande preocupação nos brasileiros, que ainda acompanhavam o Mundial via rádio. No dia do jogo, um sábado, o assunto principal nos casamentos - já que na época só se casava aos sábados - era saber o que havia acontecido com Pelé. Nas sacristias, padres e noivos preocupados com a partida, realizada no final da tarde, quase realizaram casamentos com as noivas erradas.

Coube a Amarildo a missão de entrar no lugar de Pelé na partida decisiva da primeira fase contra a Espanha. Depois de sair perdendo, o Brasil sofria com o bom time espanhol. No segundo tempo, um lance famoso. Driblado, Nilton Santos cometeu um pênalti. Malandro, o lateral deu dois passos para frente e ficou parado fora da área. Ao ver a posição do nosso defensor, o juiz não teve dúvidas e marcou apenas falta na lateral da área. Na cobrança da infração, outro erro grave. A Espanha fez um gol legal, mas o árbitro anulou o tento - feito de bicicleta pelo craque húngaro Puskas, agora naturalizado espanhol. Animado, o Brasil partiu para cima e conquistou a virada com dois gols de Amarildo nos últimos quinze minutos de partida. Vale a pena dizer que Amarildo substituiu muito bem Pelé em todas as partidas.

Nas quartas, vitória contra a Inglaterra, que já contava com alguns jogadores que iriam brilhar e conquistar a Copa do Mundo em 1966. Nas semifinais, o Brasil teve que vencer os chilenos que jogavam apoiados pela sua fanática torcida. Na final, vitória de virada, por 3 a 1, diante da Tchecoslováquia.

Esquecer da Copa de 1962 é deixar de lado o melhor momento da carreira de Garrincha. Com Pelé de fora, o ponta-direita foi o rei do futebol no Mundial do Chile. Além dos seus dribles infernais, o jogador, que sempre serviu os seus companheiros, fez belos e inusitados gols. Garrincha marcou gol de falta, de cabeça, de fora da área e de pé esquerdo. Até expulso ele foi. Na semifinal contra o Chile ele agrediu um defensor chileno, mas graças a uma armação da chefia da delegação brasileira e uma providencial viagem do bandeira peruano Arturo Yamazaki - o auxiliar dedurou a agressão do nosso ponta -, que esteve ausente do julgamento do atacante, Garrincha foi absolvido e jogou a final.

Por fim, nos últimos dias celebramos os 22 jogadores que ganharam o título sem jogar. Por isso é sempre bom lembrar dos jogadores que foram campeões do Mundo no Chile sem entrar em campo, mas que não estiveram na Suécia. São eles: Coutinho, Jair Marinho, Jurandir, Altair, Zequinha, Mengálvio e Jair da Costa que conquistaram também o mundo como todos os convocados em 1958, 70, 94 e 2002.

Estrangeiros

Conforme prometido, confira a lista atualizada de jogadores estrangeiros que atuaram no Brasil.

O destaque

Para o Flamengo, que é o líder isolado do Campeonato Brasileiro. Para aqueles que falavam que o time só estava em primeiro por jogar muito no Maracanã, na última rodada o time fez bonito e conseguiu uma vitória contra o Sport na Ilha do Retiro, estádio em que o time pernambucano não perdia há muito tempo. Agora que os clubes terão maratona de jogar pelo Brasileiro duas vezes por semana, vamos poder conferir se o Flamengo tem elenco para suportar as contusões e as suspensões dos titulares.

O que deveria ser destaque

Investir em jogadores de futebol é um grande negócio. Veja o caso do zagueiro Henrique. Em menos de seis meses, pouco mais de 20 jogos com a camisa do Palmeiras e duas convocações providenciais para a seleção brasileira deram aos investidores que compraram os seus direitos o lucro de 19 milhões de reais. A lamentar apenas que o lucro fique sempre com os investidores - cada vez mais ricos e poderosos - enquanto os clubes estão cada vez mais sem dinheiro.

Até a próxima.

HUMBERTO PERON
humbertoperon@gmail.com

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