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FUTEBOL NA REDE (Humberto Peron)

Coluna publicada em 27 de fevereiro de 2009

O Carnaval acabou, mas a violência não

Temos a péssima mania de dizer que o ano novo no Brasil só começa depois do Carnaval. Pois bem, então já passou da hora de serem tomadas providências sérias contra a violência que está tomando conta do nosso futebol. Ela chegou num ponto que nem mais nos causa indignação - tornou-se comum - a morte de um torcedor ou a cena de centenas de feridos estirados no chão.

Concordo com todos que dizem que a violência é um produto da má distribuição de renda, da desigualdade social e do tráfico de drogas. Tudo isto gera grandes e belas discussões e simpósios, mas o futebol não pode esperar que todos os problemas do país sejam resolvidos para que a violência nos estádios acabe.

Há muito tempo já passou da hora de ser feita alguma coisa sobre a violência que ronda o futebol. Precisa ser criada uma legislação específica para isto. Leio que o governo federal vai mandar para o Congresso uma lei que pune os baderneiros. Com todo respeito, acho que será mais uma maneira de se jogar para a sociedade, que está sendo feito algo. Na verdade, acho que teremos pouco efeito prático.

Não é apenas mais uma lei punindo torcedores com prestação de serviços à comunidade que vai garantir o direito de todos irem ao estádio. É preciso uma legislação que puna de maneira exemplar todos os envolvidos: torcedores, quem organiza as partidas, clubes e policiais quando eles agirem de maneira incorreta.

A primeira coisa: uma legislação que queira acabar com os baderneiros precisa ser cumprida. Parece o óbvio que estou dizendo, mas aqui no Brasil infelizmente as coisas não funcionam assim.

Temos a mais bela e dura legislação ambiental do planeta, mas não conseguimos fazer com que ela seja cumprida. O mesmo acontece com o Estatuto da Criança e do Adolescente, outro conjunto de resoluções brilhantes que erradamente virou, para alguns ignorantes e desinformados, um calhamaço que só serve para proteger os menores infratores.

No futebol, temos o Estatuto do Torcedor, que a toda hora é desrespeitado e não acontece nada. Nem as coisas mais básicas são feitas, como a informação da renda e público e muito menos temos os lugares marcados no estádio. Sem dizer que aceitamos pacificamente os clubes diminuindo a capacidade de seus campos para não colocarem um sistema de câmeras. O mínimo que se exige de um país que pretende organizar uma Copa do Mundo é que os estádios fora das condições de segurança não abriguem partidas.

E as torcidas organizadas? Não se iludam, pois estes bandos nunca serão terminados. Existe muito interesse na continuação delas. Há várias pessoas que vivem do funcionamento dos grupos, há políticos que sobrevivem graças às organizadas e dirigentes de clube que adoram fazer média com este tipo de torcida.

Aliás, os nossos dirigentes, sempre tão preocupados em mandar e-mails dizendo como gostariam de ser chamados seus estádios para não fazer propaganda de determinada marca, poderiam cobrar direitos sobre os produtos que as organizadas vendem com o uso do símbolo e o nome do clube.

Então, como não é possível terminar com as torcidas, que a legislação sobre a violência no esporte seja dura contra elas. Um artigo que eu colocaria seria o seguinte: ao se filiar a uma torcida organizada, o cidadão perderia alguns direitos. Primeiro, ele perderia a condição de réu primário. Ou seja, qualquer besteira ele iria para a cadeia. Além disso, qualquer filiado a torcidas organizadas teria que esperar o julgamento na cadeia e não teria nenhuma regalia, como esperar julgamento em liberdade, liberdade condicional ou redução de pena.

Também seria muito bom que os presidentes de tais facções fossem sempre responsáveis pelos conflitos quando a polícia não conseguisse prender os membros das torcidas envolvidos em brigas.

Para tirar a proteção que os clubes dão a esses grupos seria prudente que, no caso de tumulto de torcidas antes, durante ou após as partidas, eles fossem de alguma forma prejudicados.

Independentemente do lugar em que ela aconteça, seja no estádio ou numa estação do metrô distante, se a confusão ocorrer antes do pontapé inicial a partida deveria ser cancelada - atenção: eu escrevi cancelada e não adiada - e, de imediato, os clubes perderiam seis pontos na classificação. Se for após o jogo, além da perda de pontos da partida, os clubes seriam obrigados a atuar todos os jogos com portões fechados e sem transmissão de TV até o final do campeonato.

Também seria bom que os órgãos de imprensa parassem de fazer publicidade desses grupos. Parar de convidar membros das organizadas para programas e depoimentos. Seria muito bom que elas nem tivessem seus nomes mencionados, assim como acontece com as facções criminosas que comandam os nossos presídios.

A polícia também precisa se preparar melhor. Não custa nada infiltrar agentes nas torcidas organizadas para saber como agem os bagunceiros dessas organizações. E identificar quais os membros que organizam e comandam as batalhas. Também não custaria nada acompanhar as mensagens que as torcidas enviam via Internet. Com um mínimo de esforço é possível saber onde vão acontecer combates entre torcidas rivais.

Sei que muitos vão dizer que pedi muito aqui. São medidas inconstitucionais, mas não vamos esquecer que o nosso direito de ir a um estádio com nossos filhos há muito tempo não existe mais.

O destaque

Para a eliminação do Flamengo pelo Resende. É lógico que a péssima atuação da arbitragem atrapalhou, mas não podemos esquecer que até agora o Flamengo não fez uma boa partida no ano. Atolado em dívidas, com salário dos atletas atrasados, seria o momento de o clube mudar radicalmente o seu departamento de futebol. Chegou a hora de o time voltar a investir nas categorias de base, revelar talentos. Está certo que no primeiro instante a torcida vai sofrer com os resultados, mas em pouco tempo o time vai voltar a ser competitivo. De que adianta ir a falência pagando altos salários a jogadores de qualidade duvidosa? Do jeito que está não dá para continuar.

O que deveria ser destaque

Durante o Carnaval uma pergunta não saiu da minha cabeça: por que o futebol precisa se sujeitar aos horários da grade de televisão e as escolas de samba do Rio de Janeiro não? Com a palavra os nossos dirigentes. Aliás, pensando bem, quem organiza nosso futebol poderia pedir ajuda aos comandantes do samba carioca na hora de negociarem os contratos de transmissão.

HUMBERTO PERON
humbertoperon@gmail.com

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