NA TURMA DO
AMENDOIM







19/1

Um dossiê sobre goleiros-artilheiros


Olá para todos.

Antes de mais nada quero desejar a todos do Papo de Bola meus votos atrasados de um grande 2004.

Para esse retorno das férias, quero dividir com os leitores um dossiê sobre goleiros-artilheiros que escrevi há quase dois anos. Iria ser publicado num site de grande importância internacional, mas não o foi, coisas da vida. Como o trabalho de pesquisa valeu a pena, decidi publicá-lo aqui. Não fiz uma revisão detida, portanto alguma coisa errada pode acabar passando, como acentuações. Como era para um site estrangeiro, tive de redigi-lo sem acentuação. Acho até que algumas informações podem estar desatualizadas, mas isso não prejudica a essência do texto. Quem desejar enviar correções, fique a vontade. Espero que o tamanho não afugente ninguém. Vamos a ele.

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Uma das muitas verdades absolutas do futebol diz respeito à posição de goleiro. Para muitos filósofos do futebol ele é um tipo de jogador que não possui talento e habilidade suficientes para dominar uma bola com os pés. Não restaria outra alternativa a não ser ir para o gol. Porém, uma nova geração de atletas dedicados a essa ingrata posição surgiu nos últimos anos disposta a acabar com esse estigma. Eles não se limitam apenas a evitar os gols embaixo das traves, mas quando possível, saem de sua área para fazer os seus. A torcida e a imprensa logo os apelidou de goleiros-artilheiros. Outra máxima do folclore futebolístico diz que todo goleiro tem um pouco de louco. Afinal, jogar nessa posição é uma tarefa para poucos que se dispõem a aguentar as cobranças e conviver mais proximamente com o risco do erro. Esses que se aventuram a marcar os seus gols, comprovam ainda mais essa teoria. São loucos, sim, mas loucos pelos gols.

Para tentar entender essa paixão dos goleiros pelos gols, recuando no tempo, é possível descobrir que antes, gol de goleiro era uma obra do acaso. O primeiro registro aconteceu no dia 19 de setembro de 1970, no Rio de Janeiro. Naquele dia jogavam Madureira e Flamengo. O time visitante vencia a partida por 1 a 0 quando o então goleiro rubro-negro, Ubirajara Alcântara, quis armar um contra-ataque com o atacante Nei. Ao lançar a bola com um fortíssimo chute, acabou fazendo o primeiro gol de goleiro numa partida oficial da história do futebol mundial. A bola ainda bateu duas vezes no chão e, no segundo quique, deu um chapéu no pobre goleiro do Madureira, Paulo Roberto, que caiu de costas. Ubirajara entrava assim para a história do futebol e sua façanha entrou para o Livro Guinness dos Recordes. "O Pelé teve que fazer mil gols para entrar no Guinness. Eu precisei de apenas um", brinca o goleiro.

Porém, outro goleiro reivindica a proeza de ter sido o primeiro a fazer um gol. Navarro, goleiro revelado pelo Noroeste, marcou o seu gol no dia 18 de julho de 1961, em Bauru, numa partida válida pelo Campeonato Paulista. O adversário daquela ocasião era o Taubaté. Navarro chutou a bola de sua própria área e surpreendeu o goleiro Henrique, do Burro da Central.

No começo dos anos 80, outro goleiro brasileiro fez fama marcando gols. Tinha nome de craque: Zico, e atuou em times modestos do Paraná. Assim como Ubirajara, ele fez um gol do meio campo defendendo o Cascavel numa partida contra o Colorado, em 1980, numa partida válida pelo Campeonato Paranaense. Porém, num dado momento de sua carreira, Zico percebeu que poderia fazer gols de pênalti, afinal não havia (como não há até hoje) nada na regra que impedisse isso. Passou a ser o cobrador oficial do clube. Mesmo não existindo registros exatos de quantos gols fez, ele é considerado um dos precursores da moda de goleiros-artilheiros na história do futebol. Depois dele, veio o argentino Gatti, que atuou pelo Atlético Mineiro, e também deixou sua marca nas redes adversárias.

Além de Zico, Ubirajara e Gatti, outros goleiros deixariam suas marcas no gol do adversário. Porém, nem todos deixaram registro para passar a posteridade. Os gols de goleiro passaram a ser mais freqüentes entre o final da década de 80 e o começo da década de 90. A principal explicação para esse fenômeno talvez seja a mudança da regra determinada pela Fifa que impede que um goleiro pegue com as mãos uma bola recuada pela zaga. Todos tiveram de desenvolver a capacidade de recolocar a bola em jogo com os pés e, dessa forma, muitos se animaram a atravessar a área.

Um deles é o internacional mexicano Jorge Campos, escolhido como terceiro melhor goleiro do mundo pela Fifa, em 1993. Apelidado de "El Payaso", Campos diz que gostava mesmo de parecer um palhaço e fazer o público rir. E seu estilo de jogo, se afastando dezenas de metros de sua trave durante as partidas, sempre fez parte de seu personagem. Mas não foi apenas por isso que ele marcou sua passagem pelo futebol. Em 1988, ele se profissionalizou como goleiro no UNAM, clube mexicano. Como naquela época havia um excesso de jogadores na posição, pediu para ser escalado como centroavante. "Fui artilheiro do time, em 1989, marcando 14 gols!", diz. Por diversas vezes, durante os treinamentos da Seleção Mexicana, durante os mundiais de 1994 e 1998, Campos atuou como titular no ataque. "O meu ideal no futebol era jogar o primeiro tempo como goleiro e o segundo como centroavante. Adoro fazer gols".

O mais excêntrico goleiro do mundo. Assim é conhecido até hoje o colombiano Rene Higuita, que defendeu seu país nos mundiais de 1990 e 1994. Higuita tornou-se ídolo do Atlético Nacional de Medellín, clube com o qual conquistou em 1989 a Libertadores. Ficou conhecido por três características: sua cabeleira inconfundível, pelas cobranças de faltas e pênaltis e por driblar os atacantes adversários ainda dentro de sua área. Ele chegou até mesmo a ser apontado como um líbero de sua seleção, participando ativamente da partida orientando os zagueiros e virando um ponto de referência. Porém, nunca se esquecia de fazer seus gols, quase sempre de bola parada. Numa dessas cobranças, ele marcou um de seus mais importantes gols: na semifinal da Copa Libertadores de 1995, vencendo Burgos e derrotando o poderoso River Plate, em partida que foi realizada em Medellin. Higuita já fez 40 gols em sua carreira. É a segunda melhor marca da historia dos goleiros artilheiros. Ganhou o apelido de "El Loco" por causa de todas suas peripécias. Diz que começou a jogar assim quando era criança: "Estava sempre nos times mais fracos e, quando estávamos perdendo, eu ia para o ataque", diz. Higuita tem fãs ilustres, entre eles Franz Beckenbauer: "Sua personalidade é excepcional". Outro admirador é Dino Zoff, goleiro campeão do mundo em 1982: "É um personagem único. Não imaginava que um goleiro pudesse interpretar o seu papel desse modo. Muitos dizem que ele faz um show, eu digo que ele é muito bom". Higuita protagonizou uma das defesas mais espetaculares já vistas. Num amistoso entre Inglaterra e Colômbia, em Wembley, ele deu um salto mortal para rebater a bola que viajava para sua área, de costas, com os calcanhares. Esse lance ficou conhecido mundialmente como a defesa do escorpião.

Mas talvez o mestre dos mestres, aquele que virou referência mundial pelos seus gols marcados, é sem dúvida o paraguaio Chilavert. Foi o primeiro goleiro a marcar na história das Eliminatórias da Copa do Mundo. A façanha aconteceu em 1996, contra a Argentina. Marcou 27 gols seguidos em cobranças de pênaltis. Ganhou inúmeros prêmios na carreira. Chilavert é um caso típico de jogador de linha que foi parar no gol. "Queria ser centroavante, mas não tinha futebol para isso. Fui para o gol e meu pai, Félix, me disse que eu deveria bater falta porque eu pegava forte na bola. Já em 1981 eu era o cobrador oficial do Luqueno, clube onde comecei a jogar", conta. Desde então, ele já fez mais de 55 gols em sua carreira, a maioria deles pela Seleção Paraguaia e pelo Velez Sarsfield. Diz que jamais jogaria adiantado, como Higuita. "Ele arriscava muito, saia driblando. Jamais faria uma defesa como a do escorpião. Não mataria meu treinador de enfarte", afirma.

A principal vítima de Chilavert é o goleiro argentino German Burgos. Foi ele quem tomou os gols mais importantes da carreira do paraguaio. Era Burgos quem estava na meta argentina quando Chilavert fez seu histórico gol nas Eliminatórias. Depois, ainda em 1996, quando ambos defendiam seus clubes, Velez e River Plate, tomou outro gol de Chilavert. Nesta ocasião, foi um chute preciso dado pelo paraguaio de sua própria intermediaria. Na final da Recopa da Libertadores, também em 1996, na disputa por pênaltis, novo duelo. Quem conta é o próprio Chilavert: "Não sou amigo de Burgos. Ele me odeia. No futebol, não ha espaço para sentimentalismo. Na final da Recopa, no Japão, ele defendeu um pênalti que eu bati. Quando errei, o sujeito gritou: 'filho da puta'. Mas depois eu defendi outros dois pênaltis e levamos aquele título", diz.

Quem pensa que Chilavert deseja a fama cobrando faltas, está enganado. "Não quero a popularidade. Sou o batedor porque tenho o respaldo do restante dos clubes onde joguei". Se contenta ao saber que faz escola: "Isso é importante para mim. No dia em que eu parar de jogar, serei uma legenda do futebol. Goleiro não serve apenas para evitar gols. Pode fazer muito mais do que isso. Até gols".

Um dos discípulos de Chilavert é o brasileiro Rogério Ceni, apelidado pelo jornalista Dalmo Pessoa de "Chilavert Caboclo". Tudo começou em 1996, quando percebendo que sua equipe desperdiçava demais as cobranças de faltas, decidiu começar a treinar por contra própria. "Eu pegava um saco com bolas, ia para o campo meia hora antes dos treinos, colocava a barreira móvel e ensaiava cobranças", conta, sempre contando com o incentivo do então técnico Muricy Ramalho. Seu primeiro gol aconteceu em fevereiro de 1997, quando fez um dos gols de seu clube na vitória contra o União São João por 2 a 0. Apesar de já ter cobrado alguns pênaltis, sua especialidade são as faltas. E uma delas foi fundamental para o seu clube. Na decisão do Campeonato Paulista de 2000, Ceni fez um dos gols de falta na partida contra o Santos. A partida terminou empatada em 2 a 2. O título ficou com o São Paulo. Rogério Ceni fez história como o primeiro goleiro a fazer um gol numa decisão em território brasileiro.

Um goleiro que faz gols sempre está no fio da navalha. No Torneio Rio/São Paulo de 2002, Ceni foi protagonista de um lance inusitado na vitória de sua equipe sobre o Fluminense por 4 a 3. Depois de acertar uma bela cobrança de falta e marcar o quarto gol são paulino, o goleiro foi comemorar com a torcida e deixou a meta desguarnecida. Uma chance de ouro que o atacante Roger tocasse para as redes desde o meio-campo. Mas segundo o camisa 1 do São Paulo o erro no terceiro gol do Fluminense foi de seus companheiros. "Eu ainda estava comemorando. Mas a obrigação era dos jogadores de meio, que tinham que marcar a saída de bola do Fluminense e evitar o chute de longe. Foi um vacilo", disse Ceni.

Pela Seleção Brasileira, Rogério Ceni ainda não marcou nenhum gol. Mas passou perto na partida contra a Colômbia, em São Paulo, nas Eliminatórias da Copa de 2002. O defensor colombiano Mauricio Serna conseguiu desviar uma bola que tinha endereço certo.

Outro brasileiro vem despontando como goleiro-artilheiro. Seu nome é Diones, do Comercial de Tietê. Ele fez de falta um dos gols do seu time na goleada de 4 a 2 sobre o Andradina, pelo Campeonato Paulista da Série B-3 de 2002. Já fez cinco gols na mesma competição e sonha em se transferir para uma grande equipe, sempre balançando as redes.

Se Chilavert foi o primeiro goleiro a marcar na história das Eliminatórias, o segundo não tardou a aparecer. Foi o venezuelano Rafael Dudamel. Ele fez um gol contra a Argentina, em 1996. Desta vez, a vítima do outro lado foi Caballero. A partida já estava decidida, com uma goleada argentina por 5 a 0. Dudamel resolveu cobrar uma falta e teve sucesso. Nunca na historia uma seleção tão poderosa como a Argentina havia tomado dois gols de goleiros numa mesma competição. O placar foi 6 a 2 para os argentinos. Dudamel continua dando seus chutes em cobranças de pênaltis. Um deles foi na final da Copa Libertadores de 1999, defendendo o Deportivo Cali contra o Palmeiras, na disputa que decidiu o título. Ele converteu sua cobrança, mas isso não evitou a derrota de sua equipe.

Alem desses goleiros especialistas em chutes de longa distancia, uma outra modalidade de goleiros-artilheiros também brilha no futebol. São aqueles que, na hora do aperto, tentam ajudar seus companheiros, procurando aproveitar bolas cruzadas de escanteios. A historia é quase sempre a mesma: faltando poucos minutos para o término da partida, alguns goleiros atravessam a área e tentam a sorte de um gol salvador com a cabeça. Um desses casos é o do brasileiro Hiran. Em 1997, quando defendia o Guarani, conseguiu cabecear uma bola para o fundo das redes, empatando uma partida que já parecia perdida. O adversário era o Palmeiras. O lance aconteceu aos 46 minutos do segundo tempo, quando sua equipe perdia por 3 a 2. Com o gol, Hiran foi o herói daquela noite.

Outro exemplo que entrou para a história foi o do argentino Bossio, do Estudiantes, que no mesmo ano de 1997, fez um gol redentor de cabeça, livrando sua equipe de uma derrota praticamente certa contra o Racing. O cronômetro marcava 43 minutos do segundo tempo e Bossio não teve medo. Foi para a área adversária e fez o gol do empate por 1 a 1. Foi o primeiro gol de cabeça feito por um goleiro em mais de 65 anos de futebol profissional na Argentina.

Quem pensa que esse fenômeno está restrito aos paises latino-americanos está enganado. Os goleiros europeus também gostam de fazer seus gols. O dinamarquês Krogh salvou de cabeça também o seu Brondby de uma derrota contra o AGF Aarhus, também já nos descontos. Isso aconteceu em também em 1997. O técnico do Brondby naquela ocasião, Ebbe Skovdahl, ainda pensou em reclamar de Krogh, mas admitiu a idéia na hora, contrariado. "Deveriam proibir essas coisas, porém quem se atreve a protestar depois de um gol desses?", disse logo após o jogo. Outro que já experimentou o gosto de fazer gols de cabeça foi o italiano Rampulla, quando atuava pela Cremonese. O dinamarquês Peter Schmeichel também marcou um gol para o Manchester United na temporada 96-97, aproveitando uma jogada de escanteio.

Mas talvez o caso mais emocionante tenha sido o do goleiro Nacho Gonzales, do Las Palmas. Seu clube disputava um importante jogo contra o Osasuna, na temporada 2000-2001. Se perdesse, seria rebaixado para a segunda divisão. Nacho teve sangue frio suficiente para cobrar dois pênaltis durante a partida. Seus gols ajudaram o Las Palmas a continuar na primeira divisão, e de quebra, conseguiu duas marcas: fez o gol de número 1000 daquela temporada e se transformou no primeiro goleiro a fazer dois gols numa única partida.

Quem talvez melhor incorpore o espírito de Chilavert na Europa é o goleiro alemão Hans Jorg Butt. Atuando pelo SV Hamburgo ele já fez nove gols na temporada 99-00 e três na temporada 00-01. Hoje ele atua pelo Bayer Leverkusen. Durante uma partida entre sua equipe e o Barcelona, válida pela Copa dos Campeões, ele desperdiçou uma cobrança de pênalti.

Todos esses exemplos apresentados aqui mostram que os goleiros podem fazer muito mais do que apenas usar as mãos. Chilavert é um dos que mais incentiva seus companheiros a experimentarem o sabor de serem carrascos de seus companheiros: "Vamos derrubar esse mito que diz que goleiro só serve para defender e não para atacar. No futebol atual, não há espaço para os goleiros que se limitarem apenas a defender. Nós também temos que atacar".

*Com pesquisa feita nos seguintes veículos: Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Pelé.Net, O Globo, Placar, Gazeta Esportiva e Jornal do Brasil.


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