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OLHO TÁTICO (André Rocha)

Coluna publicada em 4 de agosto de 2008

O time de Ronaldinho

O que esperar de uma seleção desprezada pela própria Confederação, convocada de acordo com a disponibilidade dos atletas, comandada por um técnico contestado e inexperiente, e com pouquíssimo tempo para se preparar para a competição? A resposta mais lógica seria "nada, ou muito pouco".

Mas ao contrário da Seleção principal, que vem mostrando um futebol burocrático e sem criatividade, muito pelos nomes escolhidos, esta equipe traz talentos promissores e tem em Thiago Silva e Ronaldinho dois "veteranos" que podem comandar o time em Pequim. Especialmente o ex-bi da Bola de Ouro em 2004/05 que, além de ser a estrela maior, alvo de todos os flashes e atenções, também é a peça chave do esquema de Dunga, apesar da longa inatividade.

É o camisa 10 a solução e o problema, a engrenagem que faz o jogo brasileiro fluir ou travar, de acordo com a sua movimentação em campo.

Na impossibilidade de fazer maiores experiências e sem contar com Robinho, seu "jogador-símbolo", o treinador simplificou o esquema para que ele fosse melhor assimilado. Com quatro na zaga, dois volantes e dois mais na criação para a dupla de ataque, Dunga empurrou Ronaldinho para a frente e enfiou Pato entre os zagueiros. Se na teoria a decisão parece a mais coerente, em campo a equipe acaba oscilando muito. Mesmo em partidas contra adversários frágeis como Cingapura e Vietnã, a Seleção se atrapalha não só com a natural falta de entrosamento, a precaução nas divididas e um certo desinteresse pelos amistosos preparatórios, mas principalmente pelas características dos jogadores que impedem uma maior dinâmica.


O 4-2-2-2 sem mistérios de Dunga.

A questão é que, além dos meias Diego e Anderson, Ronaldinho Gaúcho também gosta de voltar para buscar a bola e tentar as tabelas e lançamentos. Só que, além de isolar Pato, os três congestionam demais as intermediárias e travam o apoio de Rafinha e Marcelo. Para complicar ainda mais, Anderson às vezes se confunde em seu novo posicionamento e acaba recuando demais, como o meia central que é no Manchester. Com isso, Diego fica sozinho na armação e traz Ronaldinho com ele. Se somarmos a isso a cautela de Dunga, que no time principal também segura as descidas de laterais e volantes, temos uma equipe com sérias dificuldades na articulação.

A bola só rola redondinha quando Ronaldinho se junta a Pato à frente para as combinações, Diego e Anderson avançam e, além de municiar os atacantes, encostam nos laterais para servir de ponto de apoio para as ultrapassagens. Outro ponto positivo é a qualidade na saída de bola de Hernanes e Lucas, que fazem a bola chegar com rapidez e precisão na frente. Ainda falta um pouco de pegada na dupla de volantes, mas o toque fácil compensa a deficiência.

Dunga tem a felicidade de encontrar no grupo de dezoito jogadores alternativas para mexer na equipe. Mesmo convocando apenas três zagueiros, o que já se mostrou temerário pela necessidade de improvisar Lucas no setor por conta das ausências dos Silvas contra o Vietnã (o Alex suspenso e o Thiago contundido), o treinador tem em Breno um defensor de talento e personalidade para entrar e não sair mais da equipe. O ex-jogador do São Paulo seria o titular deste colunista, assim como Thiago Neves, que entrou muito bem nos dois amistosos, mostrando iniciativa e um jogo mais vertical e objetivo que o de Diego.


Um 4-3-2-1 com Breno e Thiago Neves: boa alternativa.

Armar o meio-campo com um trio e abrir dois meias-atacantes pelos lados daria espaço e companhia aos laterais, facilitaria o trabalho de Anderson, além de garantir que Pato não ficaria tão solitário à frente. Mais do que isso, fixaria Ronaldinho no ataque e mais à esquerda, onde gosta de atuar. Dunga sempre afirma que o jogador é que deve estar a serviço da Seleção, mas montar um esquema para privilegiar seu principal jogador não é pecado. É inteligência.

Seja como for, é nosso dever torcer, ainda que o ouro olímpico venha a ser mais uma conquista a cair no colo de Ricardo Teixeira e garantir a permanência do contestado Dunga à frente da Seleção. Este improvisado Brasil comandado por um craque imprevisível deve fazer dos problemas uma maneira de encarnar o espírito de franco-atirador, deixando o favoritismo para os "hermanos" argentinos, os atuais campeões. Com fibra, seriedade organização tática e, principalmente, o talento que sobra neste time, é possível fazer História.

ANDRÉ ROCHA
futebolearte07@gmail.com

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