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OLHO TÁTICO (André Rocha)

Coluna publicada em 27 de fevereiro de 2009

O sólido e versátil Manchester United

Alex Ferguson foi eleito o melhor treinador do planeta em 2008 pela IFFHS (Instituto de História e Estatística do Futebol); sua equipe também ficou no topo entre os times pelo Instituto; a FIFA e a “France Football” consagraram Cristiano Ronaldo como o melhor jogador do ano. O Manchester United é o atual (bi)campeão nacional, continental e mundial.

Tantas conquistas e prêmios poderiam ter acomodado um grupo mais que vencedor e que inicia um processo de renovação em seu elenco, com jogadores como Neville, Scholes e Giggs já próximos da aposentadoria. No entanto, seguindo a tradição das últimas três temporadas, os Red Devils, depois de um início hesitante, reacertaram a equipe e, dentro de uma concepção mais competitiva do que plástica, alcançaram um desempenho invejável já neste início de 2009.

Ferguson alcançou um conhecimento tão pleno das possibilidades dos atletas que tem a sua disposição que já possui um domínio que o permite escalar a equipe dentro de um revezamento que não desgaste tanto o elenco e, ao mesmo tempo, se adeque às características dos adversários, bloqueando seus pontos fortes e explorando as fragilidades, como um “camaleão” repleto de versatilidade.


Os titulares em um 4-4-2 "móvel"

Dentro do que poderíamos considerar o “time-base” do Manchester, o 4-4-2 britânico pode sofrer várias transformações: com o recuo de Rooney para congestionar o meio-campo, a equipe passa a atuar em um 4-2-3-1; se o atacante inglês abrir em um dos lados do campo e Giggs compor o meio-campo com Carrick e Scholes, vira um 4-3-3; se a equipe precisar atacar em massa contra um oponente retrancado, os “wingers” ficam espetados, Rooney vai para a área fazer companhia a Berbatov e temos uma versão moderna do 4-2-4 criado pela Hungria de Puskas nos anos 1950.

O rico e versátil elenco também permite criar inúmeras alternativas para o treinador surpreender os adversários nas diversas competições em que a equipe está envolvida. Citaremos três exemplos marcantes dos últimos tempos:

*Na final do Mundial Interclubes contra a LDU, Park foi escalado pela direita para ajudar o jovem lateral-direito Rafael no cerco a Bolaños, a principal arma ofensiva da equipe equatoriana, Carrick entrou como meia central na vaga de Anderson para dar mais poder de marcação ao setor e bloquear as investidas de Manso e, no segundo tempo, Rooney virou meia e Cristiano Ronaldo atacante. Na combinação entre os dois, o gol do título.

*Nos 3 a 0 sobre o Chelsea no Old Trafford, os donos da casa atuaram em algo próximo do 4-1-4-1, emulando o esquema adversário para conter o apoio dos laterais do time londrino e fechar o caminho de Lampard e Ballack pelo meio. Fletcher foi o volante mais plantado, Giggs jogou por dentro, com Park e Ronaldo abertos, Rooney pelo centro e Berbatov à frente.

*E no primeiro confronto pelas oitavas-de-final contra a Internazionale em Milão, com os desfalques de Vidic, Neville, Brown e Rafael, Ferguson improvisou O’Shea na lateral-direita e o plantou na marcação a Muntari. Do outro lado, Park bloqueou as investidas de Maicon, a principal arma ofensiva de Mourinho pelos flancos, Giggs jogou mais à frente e Cristiano Ronaldo, aberto pela direita, levou ampla vantagem sobre o jovem Santon e foi o destaque dos visitantes, transformando o goleiro Júlio César na melhor figura em campo e fazendo o ótimo resultado para a partida de volta em Manchester se tornar um amargo empate.


Contra a Inter: Park fechou pela esquerda e Ronaldo voou pelo outro lado

É possível afirmar que a coesão e a leitura tática da equipe praticamente independem da escalação e do sistema empregado. O grupo já conhece tão bem seu comandante que já sabe o que fazer em campo. Com a exceção de Tevez, que pretende sair ao final da temporada, todos percebem que em algum momento serão úteis ao time. Ferguson, por sua vez, já sabe por experiência o que esperar de cada um e, na maioria das vezes, o time entra em uma espécie de “piloto automático”, com os laterais se alternando no apoio e sabendo fechar por dentro com total sincronia; os "wingers" combatendo os laterais adversários ou ficando mais à frente para puxar os contragolpes; os meias centrais se transformando em volantes no momento exato; o segundo atacante já recuando instintivamente para dar o primeiro combate aos volantes do oponente e por aí vai. Mesmo a estrela Cristiano Ronaldo sabe a hora das pedaladas e o momento de cumprir sua função tática.

Os números impressionam: até o gol marcado por Santa Cruz para o Blackburn na vitória por 2 a 1 na última rodada do Campeonato Inglês, o Manchester havia ficado 14 partidas sem ser vazado. Em 26 partidas, apenas 11 gols sofridos; o time está invicto na competição nacional há quinze jogos e já abriu cinco pontos de vantagem sobre o vice-líder Liverpool. Pela Liga dos Campeões, a equipe sofreu apenas três gols em sete jogos e, juntando com a edição passada, já soma vinte partidas de invencibilidade, a maior da História do principal torneio de clubes do mundo junto com a do Ajax, sem perder de 1986 a 1996.

Se o estilo é menos vistoso do que nos anos anteriores, o Manchester de hoje é a equipe mais difícil de ser batida no planeta. Entrosado e praticamente imune a desfalques e alterações táticas, o time de Sir Ferguson mostra que o tempo de trabalho aliado a ótimos resultados formam o pilar mais sólido dos esquadrões inesquecíveis.

ANDRÉ ROCHA
futebolearte07@gmail.com

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