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Nilton Santos: a enciclopédia faz 80 anos
Segunda, 16 de maio de 2005
O mundo do futebol celebra nesta segunda-feira os 80 anos de uma das suas maiores lendas: Nílton Santos. O lateral esquerdo bicampeão mundial com a Seleção Brasileira, tetracampeão carioca com o Botafogo (clube do qual é hoje consultor técnico), e um sem número de outras conquistas, sempre ou com a amarela do seu país ou com a alvinegra da sua agremiação, foi o responsável por várias mudanças táticas em várias seleções e clubes do mundo, e também por um novo papel do lateral em campo. Por essas e outras, foi eternizado como "A Enciclopédia do Futebol".
Em entrevista concedida há três anos à página Gazeta Esportiva.Net, Nílton confessou: "eu invejo os laterais de hoje. Não pelo dinheiro que eles ganham, mas pela liberdade que tem para jogar. Eu sempre gostei de atacar, mas fazia com cuidado, pois se o time tomasse um gol naquela hora eu ia parar na forca." Mas a época foi tremendamente benéfica com ele: "tinha a vantagem de ter Garrincha no meu time. Ele atraía o jogo para a direita e eu aproveitava para dar minhas arrancadas. Consegui fazer 11 gols pelo Botafogo e três pela Seleção, o que era um absurdo na época. Creio que fui um dos primeiros laterais a atacar e não só a marcar", diz. Jogador clássico e elegante, Nílton raramente fazia faltas e jamais apelou para a violência.
No entanto, não foi na lateral esquerda que ele iniciou a carreira, e sim como centroavante. Daí, em um treino, foi postado como quarto zagueiro. Dali para a lateral, foi um pulo. Mas havia a obsessão pelo ataque, e com isso, ele inovou o futebol de sua época, com suas "estranhas arrancadas" pela quina canhota. Mais um diferencial quase que exclusivo de Nílton à época era chutar e driblar com as duas pernas - isso, além do futebol refinado e hábil. Era um líder discreto, mas firme, respeitado por jogadores como Amarildo, Pelé e o melhor amigo e compadre, Garrincha. Foi nos ombros de Nílton, então com 33 anos, que Pelé, com 17, chorou ao conquistar a Copa de 58, na Suécia. "É isso aí, garoto. Finalmente somos campeões. E graças a você", disse naquele instante.
Na Copa de 62, no Chile, ele conseguiu conter os ânimos do genioso Amarildo, que tinha - com toda a razão - o apelido de Possesso entre seus companheiros de Botafogo. Nílton lembra: "eu e o Didi chamamos o Amarildo e falamos que os espanhóis iriam tentar irritá-lo e que ele teria de se controlar para não ser expulso. Ele entendeu o recado e se comportou maravilhosamente bem. Parecia um anjo dentro de campo". Também naquela Copa, aconteceu um lance que marcaria a vida do lateral e do futebol brasileiro. E foi justamente nesta partida, contra a Espanha, pela última rodada da fase classificatória, na qual quem perdesse voltaria para casa.
Nílton conta o que aconteceu: "começamos mal e tomamos um gol no primeiro tempo. O técnico espanhol colocara um cara novo e veloz em cima de mim, mas ele era canhoto. Ele ganhava todas as corridas, mas na hora de cruzar, tinha que ajeitar a bola para a perna boa. Nessa hora, eu chegava e roubava a bola. No segundo tempo, a mesma jogada se repetiu, mas, na hora de cortar a bola, acabei derrubando o espanhol dentro da área. Instintivamente, dei dois passos e saí da área. O árbitro estava longe, não viu e marcou falta e não pênalti. Foi pura malandragem, daquelas que a gente aprende nas peladas."
E já que a bola não foi para a marca da cal na grande área, deu pra bola dos espanhóis e encheu a de Mané Garrincha, que começou um show particular, driblando todo mundo do jeito que bem entendesse. E dribles frutíferos, pois num deles, a bola foi para Amarildo, que empatou. Desespero espanhol. Como parar Mané das Pernas Tortas? Não tinha como. Em outra jogada dele, outro gol do Possesso, e o Brasil vencia aquela peleja. Nílton não tem dúvidas até hoje: o pênalti cometido por ele e não marcado pela arbitragem foi fundamental para a permanência brasileira na Copa do bi: "sem ele, seríamos eliminados e, hoje, em vez de sermos tetracampeões, seríamos tri, como a Alemanha e a Itália".
Em tempos cada vez mais "profissionais", onde jogadores trocam de camisa de clube como quem troca de roupa ao acordar, Nílton é um exemplo eterno de fidelidade. Somente duas camisetas foram por ele envergadas: a do Botafogo, durante 716 partidas em 17 anos; e a da Seleção Brasileira, em 75 partidas oficiais e dez não-oficiais. E em tempos atuais, onde o dinheiro é a primeira coisa que passa na cabeça dos boleiros, a Enciclopédia continua fiel à sua ideologia da época em que jogava: não dar bola para a grana. Sem arrependimentos. "Eu acho que sempre fui amador. Cheguei a assinar três contratos em branco, no auge de minha carreira. Faria tudo de novo, outra vez. Tudo o que tenho, tudo o que eu sou, eu devo ao Botafogo."
Maior que sua paixão pelo Botafogo, talvez, só a pela bola de futebol: "é a minha vida. Foi quem me deu tudo. Nunca me traiu, nunca me bateu na canela. Sempre me obedeceu. Minha bola é minha vida". Nílton começou no clube da Estrela Solitária em 1948, quando Zezé Moreira era o treinador. Ele chegou indicado pelo Major Onório, seu superior na aeronáutica. Dois anos após e estava na Seleção, ainda que como reserva, mas disputando a Copa no Brasil. "Foi muito triste ver o Maracanã silencioso. Deu vontade de fugir", recorda ele, em referência à tragédia de 16 de junho de 1950, a derrota para o Uruguai no Maracanã. Depois da Copa de 54, na Suíça, a qual define como "uma bagunça geral", viria a Suécia, em 58.
Tão confiante estava em nossa vitória que, na véspera da decisão, disse aos repórteres: "Pelé, Garrincha e Didi jogam no nosso time. Os suecos que passem a noite em claro pensando em como marcar o Brasil. Eu vou dormir sossegado". Foi 5 a 2 para nós. Ainda na Copa de 58, uma passagem marcante de Nílton: Brasil x Áustria, vencíamos por 1 a 0, e iniciava o segundo tempo. Ele pegou a bola na defesa e começou a avançar. Desesperado, Vicente Feola gritava "volta, Nílton!" do banco. Nem deu bola. Seguiu correndo e ultrapassando os adversários. Já quase na intermediária, de novo o "volta, Nílton!". Fingiu que não ouviu e foi à entrada da área austríaca. Feola já estava quase sem voz quando soltou o terceiro "volta, Nílton!". A resposta do lateral: um chute magistral da entrada da área, e o segundo gol brasileiro, que levou ao delírio a platéia. Restou ao técnico murmurar: "boa, Nílton".
1962 foi o grande ano de Nílton Santos. Foi bicampeão mundial com a Seleção e bicampeão carioca pelo Botafogo, numa decisão histórica contra o Flamengo, onde Mané Garrincha acabou com a partida. Em dois anos, aos 39 de idade, pendurava as chuteiras para sempre. O que não significou, de maneira alguma, o abandono do futebol. Em 1998, tocou um projeto de uma escolinha de futebol em Palmas (TO), para crianças carentes. Apesar de nunca ter sonhado em treinar um clube de futebol - "é muito desgastante" -, chegou a treinar o Bonsucesso, no Rio, e o Galícia e o Vitória, ambos na Bahia.
Também em 98, lançou um livro autobiográfico chamado "Minha Bola, Minha Vida", pela editora Gryphus. E mais recentemente, foi convidado por Paulo César Gusmão para ser consultor técnico do Botafogo, cargo que aceitou. O clube é hoje um dos dois únicos com 100% em quatro rodadas do Campeonato Brasileiro. Certa feita, quando pediram uma autodefinição, Nílton disse: "Sou um cara que só jogou futebol em um clube. Encerrei minha carreira com quatro meniscos, o que prova que tinha bom equilíbrio. Sou muito feliz e tenho a minha consciência tranqüila. Quando tenho sono, durmo em cinco minutos. Minha religião é não fazer mal a ninguém e, se puder, ajudar o próximo".
Nome completo: Nilton Santos
Nascimento: Rio de Janeiro (16/5/1925)
Títulos: Campeão Carioca (1948, 1957, 1961 e 1962); Campeão do Torneio Rio-São Paulo (1962 e 1964); Campeão Mundial (1958 e 1962); Campeão do Torneio Sul-Americano (1949); Campeão do Torneio Pan-Americano (1952) pela seleção
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