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Relíquia cinematográfica futebolística pode ser perdida
EDU CESAR
Editor do Papo de Bola
Quando se diz que o Brasil não tem memória, não é sem motivo. Infelizmente mais um caso neste sentido acontece. A edição deste domingo do jornal Folha de S.Paulo informa que os negativos de "O Craque", de 1953, o filme mais antigo da história do cinema brasileiro tendo o futebol como pano de fundo que não se perdeu com o tempo, estão, segundo laudo expedido no final de 2007, "em estágio de deterioração muito avançada, provavelmente com partes irrecuperáveis".
Os negativos do filme estão em um depósito da Cinemateca Brasileira do Estado de São Paulo. Exceção a trechos em VHS, não há qualquer cópia do filme em bom estado. O material está com a publicitária Patrícia Civelli, 57 anos, filha do produtor de "O Craque", Mário Civelli, falecido há 15 anos. Desde então, ela tenta restaurar a obra do pai, e procura patrocínio para o filme que tem o futebol como pano de fundo ser restaurado. Calcula-se que isso levaria cerca de um ano, ao custo de R$ 1,8 milhão.
"O Craque" se passa na São Paulo da década de 1950, quando o rio Tietê era limpo. Os protagonistas são Eva Wilma e os falecidos Carlos Alberto e Herval Rossano. Nele, é mostrado um jogo real entre Corinthians e o paraguaio Olimpia - que, na obra, vira o temido campeão uruguaio Carrasco, de Montevidéu. A equipe corinthiana era formada por craques como Gilmar, Baltazar e Carbone, e foi campeão do Quarto Centenário de São Paulo (1954). O narrador do jogo no filme é o também falecido Blota Jr.
O futebol, incluindo cenas do jogo - no filme vencido pelo Corinthians, de virada, numa revanche fictícia ao "Maracanazo" de 1950 -, ilustra a história de amor entre Elisa (Eva) e Julinho "Joelho de Vidro" (Carlos), apelidado assim devido a uma queda sofrida na infância. O pai dela, um rico industrial, não aceita sua filha namorar um jogador em busca do sucesso, e a pressiona a se noivar com o jovem médico Mário (Herval). No final, Julinho se consagra ao substituir Carbone e marcar o gol da vitória.
Poucos dos envolvidos nas filmagens ainda estão vivos. Além dos protagonistas, faleceram quase todos os jogadores do Corinthians, o diretor José Carlos Burle, Mário Civelli e dois dos roteiristas. O terceiro é o jornalista Alberto Dines, 76 anos, que guarda fotos das filmagens e originais do roteiro em amarelados papéis datilografados. Na época, Dines era repórter e crítico de cinema da revista Visão. Eva, hoje no ar em "Desejo Proibido", novela das 6 da TV Globo, definiu como angustiante a situação do filme.
Segundo disse à Folha Patricia de Filippi, diretora da Cinemateca e coordenadora do laboratório de restauração, os negativos originais de "O Craque" foram entregues por Civelli em 1989. Ela diz que um laudo de 1993 atestou "evidentes sinais de deterioração" no material. Patricia disse que as oito latas com negativos de imagens do filme e outras oito com negativos do som ficam a 10 graus e 35% de umidade relativa do ar. Mas o prejuízo já foi grande de tal forma que há risco da obra desaparecer.
Segundo Victor Mello, coordenador do Laboratório de História do Esporte da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do livro "Cinema e Esporte", "O Craque" é o mais antigo filme brasileiro que mostre o futebol a resistir ao tempo. Foi, no entanto, o quinto a ser produzido com o futebol como mote. Antes vieram "O Campeão" (1931), "Futebol em Família", "Alma e Corpo de uma Raça" (ambos de 1938) e "O Gol da Vitória" (1946). Infelizmente, os quatro já foram totalmente perdidos.
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