Jogos Olímpicos chegando e finalmente a torcida começa a prestar atenção em outros esportes. Basquete, por exemplo.
Terminou o Pré-Olímpico Feminino e, graças a Deus, nos classificamos. Mas o que marcou esses dias na Espanha foi o qüiproquó entre Iziane, a que a imprensa apontava como destaque da seleção, e o técnico Paulo Bassul. Mas antes de chegarmos ao cerne da questão, vamos voltar ao tempo.
Comecei a acompanhar basquete feminino com meu finado pai no final dos anos 80. Seleção pra imprensa era Hortência, Paula mais algumas moças. Tá, as duas sabiam capitalizar o estimulo da imprensa e da torcida, mas na hora da verdade sumiam, até porque as vitórias eram das duas e as derrotas eram da falta de estrutura, da falta de incentivo e todo o rosário de verdades que se tornam desculpas a cada derrota.
Veio o Ouro no Pan de Cuba, em 91, com direito a babação de ovo do Fidel Castro, e no Pré-Olímpico sofreram, mas foram para a Olimpíada pela primeira vez. Apenas um adendo: elas eram tão paparicadas pela imprensa que até o Pré-Olímpico foi transmitido ao vivo para o Brasil e com narrador no ginásio e tudo (todo jogo as câmeras do ginásio filmavam o Luiz Alfredo narrando, pois acredito que para mostrar que o cara era muito empolgado). Na Olimpíada, sétimo lugar e todo rosário de desculpas de novo.
Veio o Mundial de 94 e o título. As duas comemoraram como mereciam comemorar. Mas quem ganhou aquele campeonato e quem na hora da verdade não deixou a desejar foi a Janeth, e olha que a Janeth estava na seleção há uns três anos, mas foi só lembrada naquela campanha.
Passou os anos e Hortência, depois Paula, se aposentam. E Janeth jogando muito, jogando tanto que a imprensa sentenciou: ela será a herdeira das duas. Tudo bem, muito belo, mas quem será a Janeth da Janeth? Quem vai aproveitar que os holofotes estão com jogadora tal, para poder desenvolver seu excelente jogo?
Nesse contexto surge a Iziane, que pelo que lembro só ganhou campeonato sul-americano, mas pelo menos foi a que se destacou mais na era de Janeth, tanto que a imprensa sentenciou mais uma vez: ela será a herdeira das três. De novo, tudo bem, muito belo, mas quem será a Janeth da Iziane, quer dizer, a Iziane da Iziane???
Veio o Pré-Olímpico da Espanha e sinto que o fardo “subiu na cabeça” da moça: se a seleção perde, ela não teria a cara de apontar as desculpas que as três (Hortência, Paula e Janeth) usaram no passado, até porque as seleções que lá estavam tinham o mesmo nível, mas ia levar a culpa como nenhuma das três levou em nenhuma das situações, nem quando em 1996 entravam para disputar o ouro contra os Estados Unidos já conformadas com a medalha de prata e nem tiveram trabalho de fazer papel de coadjuvantes.
Sendo assim, creio que ela deve ter pensado nisso: "se vou ser crucificada pela torcida e pela imprensa, que pelo menos eu morra lutando". E naquele jogo, ela e a equipe estavam jogando mal, mas muito mal, tanto que banco para ela era lucro, pois se ela tivesse a malandragem que os jogadores da seleção de futebol masculina tem, ela deixava o barco afundar para apontar o dedão para o técnico colocando a culpa, já que ele não a deixou jogar, etc. Mas ela não contava que o técnico iria chamá-la para o jogo. E no momento que ele chamou, se ela botasse fé em seu taco ou no das colegas, ela entrava, jogava tudo que sabe, classificava o Brasil e ainda fazia o papel de mocinha da história.
Mas fez o impensável: recusou a entrar, não quis ser a mocinha da hora, nem salvadora da pátria e, de presente, ganhou o titulo de vilã da vez. Pior: não teve a solidariedade de ninguém, e até quem estava sumido apareceu para dar sua paulada nela (Hortência e Oscar falando sobre o assunto pra mim parece o Romário falando sobre disciplina de treinos).
Nem as colegas ficaram do lado dela, pelo menos elas tiveram a decência de não opinarem sobre o assunto. Garanto que todas concordaram com ela, mas não vão ter coragem de se expor publicamente, principalmente quando está em jogo a chance de disputar uma Olimpíada e, pelo relato de vários atletas que foram e não ganharam nada, ganhar numa Olimpíada é bom, mas estar lá é muito melhor.
No final, fica tudo como está. Duvido que essa seleção alcance uma medalha e, se alcançar, será um Milagre (com M maiúsculo e tudo).
O técnico vai usar o caso Iziane para motivar as outras a serem mais disciplinadas taticamente, mas não sei se tecnicamente vai surtir efeito. Se der certo, viva ele; se não der, pode apostar que a desculpa será: "Iziane fez falta, mas não poderia levar porque eu ia perder o controle sobre a seleção." Quem vai questionar o técnico que tentou disciplinar a situação, mesmo que a custo de perder uma boa jogadora (como o Brasil clama por disciplina em vários aspectos)?
Os ex-jogadores voltam a ser ex-jogadores e viverem das glórias do passado.
Agora a Iziane, que é apenas uma boa jogadora e não um gênio das quatro linhas, e que viveu seus momentos de estrela, pode ser estigmatizada. A sorte é que ela joga há algum tempo no exterior. Se for esperta, aproveita essa oportunidade e faz seu pé de meia. Não acredito que ela volte a jogar na seleção e, se por acaso voltar a jogar na seleção ou em algum clube brasileiro, todo treinador vai ficar com os pés atrás com ela, ou então vai descontar suas incompetências nos ombros dela. Ou seja, ela arrumou pra cabeça.
Na boa, esperto é o Kaká, que joga nas suas dores musculares, no cansaço de final de temporada e na intransigência do Milan, a indisposição de jogar na Seleção Brasileira. Ele sabe que, se for, vai ser cobrado e vão jogar nas suas costas a responsabilidade de todos. Mas ele não nasceu para ser “salvador da pátria”.