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PAPO ESPECIAL

Sábado, 28 de junho de 2008

50 anos do primeiro de nossos gloriosos feitos

EDU CESAR
Editor do Papo de Bola

Neste domingo celebraremos 50 anos de uma das maiores conquistas da história do futebol brasileiro, aquela que abriu caminho para todas as demais: a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Uma geração formada por jogadores extraordinários ganhou o planeta bola e entrou para a história. Vamos contar um pouco desta história.

Para buscar a classificação à sexta Copa do Mundo seguida e ser o único país a participar de todos os Mundiais, o Brasil teve como homem fundamental na construção deste plano Paulo Machado de Carvalho, empresário paulista que, em 1957, apresentou à CBD um plano sério, que acabava com a bagunça improvisada dos anos anteriores. Seus auxiliares neste plano eram Flávio Iazetti, Paulo Planet Buarque e Art Silva. A CBD, a partir da posse de João Havelange na presidência, em 14 de janeiro de 1958, aprovou o Plano Paulo Machado de Carvalho. Vicente Feola, Carlos Nascimento e José de Almeida compunham a comissão técnica.

Nas eliminatórias da América do Sul, o Brasil caiu no Grupo A, com Peru e Venezuela. O campeão estaria na Suécia em 1958. A Venezuela desistiu e a disputa ficou direta entre Brasil e Peru, em duas partidas. A primeira foi em 14 de abril de 1957, no Nacional de Lima. Terry abriu o placar para os peruanos aos 37 minutos do primeiro tempo, mas Índio empatou aos 3 do segundo. O jogo de volta foi exatamente uma semana depois, no Rio de Janeiro, em um Maracanã com 120 mil fãs. Não foi uma partida fácil, embora a vantagem fosse nossa desde os 11 minutos de bola em jogo, em cobrança de falta cobrada por Didi, a famosa "folha seca".

Classificada, a Seleção ainda sofria com alguns apuros, mesmo com o Plano Paulo Machado de Carvalho em ação. Didi quase ficou fora da Copa pois o auxiliar Moacir o acusara de não se esforçar nos treinamentos. À revista Manchete Esportiva de 2 de maio de 1958, o talentoso jogador declarou sua mais famosa máxima, em resposta à acusação: "treino é treino, jogo é jogo". E Didi foi à Copa. O Plano Carvalho era pioneiro ao integrar um psicólogo à delegação enviada. Ele, um médico e odontólogo dedicariam-se à saúde física e mental dos jogadores. O embarque do Brasil foi às 17h de 24 de maio de 1958, em vôo da Panair, para dois amistosos na Itália.

Os jogos aconteceram em 29 de maio e 1 de junho, respectivamente contra Fiorentina e Internazionale, ambos vencidos por 4 x 0. Uma polêmica marcante neste período dos amistosos: Vicente Feola e Carlos Nascimento decidiram barrar Garrincha da Seleção, trocando-o por Joel. O Mané, para eles, abusou dos dribles na goleada sobre a Fiorentina. A gota d'água foi quando Garrincha, após driblar todo mundo, inclusive o goleiro, esperou um zagueiro chegar para, ao driblá-lo, aí sim mandar a bola para a rede. O estádio inteiro aplaudiu de pé o lance mágico, mas os responsáveis pela comissão técnica acharam isso uma irresponsabilidade inadmissível em uma Copa.

Os eleitos de Feola para a Copa do Mundo foram estes, com seus respectivos números e times à época: goleiros, Castilho (1, Fluminense) e Gilmar (3, Corinthians); defensores, Bellini (2, Vasco), Djalma Santos (4, Portuguesa), Oreco (8, Corinthians), Zózimo (9, Bangu), Nílton Santos (12, Botafogo), De Sordi (14, São Paulo) e Mauro (16, São Paulo); meias, Dino Sani (5, São Paulo), Didi (6, Botafogo), Moacir (13, Flamengo) e Zito (19, Santos); atacantes, Zagallo (7, Flamengo), Pelé (10, Santos), Garrincha (11, Botafogo), Joel (17, Flamengo), Mazzola (18, Palmeiras), Vavá (20, Vasco), Dida (21, Flamengo) e Pepe (22, Santos).

A estréia foi no dia 8 de junho, um domingo, pelo Grupo 4. Adversária: a Áustria. Local: o estádio Rimmerwallen, em Uddevalla. O Brasil saiu na frente aos 38 minutos do primeiro tempo, com Mazzola, que recebeu na direita um passe em profundidade de Didi e chutou rasteiro no canto de Szanwald. O segundo gol veio na etapa final. Nílton Santos tabelou com Mazzola pela direita e, por cobertura, ampliou a vantagem. E não adiantou Vicente Feola gritar "volta, Nilton!" para o lateral com fome de apoio. A vitória foi definida a partir de contra-ataque puxado por Didi, que tocou para Dida, na esquerda. Ele lançou Mazzola na direita e o atacante fez a dobradinha. Brasil 3 x 0.

Na quarta-feira, dia 11, o Nya Ullevi, em Gotemburgo, era o caminho para o segundo jogo da Seleção. Inglaterra pela frente. Os goleiros Gilmar e McDonald se sobressaíram e garantiram o 0 x 0 final. Domingo, dia 15, o mesmo estádio acompanhou o nascedouro do time que se consagraria em definitivo. Zito, Pelé e Garrincha foram as novidades de Feola contra a União Soviética. E deu certo. Vavá abriu o placar aos 2 minutos de jogo, chutando forte a bola passada por Didi. O mesmo Vavá definiu a vitória brasileira aos 20 da segunda etapa, ao tabelar com Pelé e chutar da entrada da área. Com 5 pontos, o Brasil classificou em primeiro no Grupo 4 para as quartas-de-final.

Quinta-feira, 19 de junho. O País de Gales era o oponente, novamente no Nya Ullevi. Garrincha e Pelé saíram jogando novamente, mas Vavá, destaque na partida anterior, estava fora, vetado pelo departamento médico. Mazzola retornava à equipe. Da parte galesa, John Charles, o craque do time, também não jogou por estar lesionado. Ao longo de toda a partida, a Seleção foi pressão pura. Mas a vitória foi magra, por um solitário gol. E gol de Pelé. E um golaço. Ele recebeu de Didi, que tocou de cabeça, e matou no peito, tirando dois galeses da jogada e tocando no cantinho direito. Melhor cartão de visitas não haveria. Brasil semifinalista da Copa do Mundo.

Terça-feira, 24 de junho. Brasil e França decidiriam uma vaga na grande decisão em grande partida no Rassunda, em Estocolmo. Vavá, logo no segundo minuto, nos colocou à frente, aproveitando falha da defesa francesa. Aos 9, empate com Just Fontaine, então marcando seu oitavo gol, o primeiro sofrido por Gilmar na Copa. Aos 26, a França perdeu Jonquet, machucado em dividida com Vavá. Aos 39, Didi desempatou de fora da área. No segundo tempo, Pelé faturou três vezes: aos 7, aproveitando rebote do goleiro Abbes; aos 19, concluindo passe de Garrincha; e aos 30, em chute da entrada da área. Piantoni ainda diminuiu aos 37. Brasil 5 x 2, Brasil finalista da Copa.

Chegou então o domingo, 29 de junho de 1958. E logo quem enfrentaríamos na final? Justamente a Suécia, anfitriã da competição. Ela jogava de amarelo, assim como o Brasil. Por sorteio, os anfitriões jogaram com a camisa amarela. Nossa Seleção jogou de azul, com camisas compradas pela delegação nas quais foram costurados os números e o símbolo da CBD. Justamente na final algo inédito acontecia: Brasil saindo atrás no marcador. Aos 4 minutos do primeiro tempo, Liedholm recebeu, tirou Orlando e Bellini da jogada e, sem muita força, tocou no canto direito de Gilmar. Prenúncio de novo vice-campeonato? Desta vez, não. A virada seria muito gostosa.

9 minutos de jogo. Garrincha cruzou da linha de fundo, Pelé chegou atrasado e, de carrinho, Vavá empatou para o Brasil. Aos 32, a virada começou com Djalma Santos, que tocou para o Mané, que deixou Axbom na saudade e cruzou para Vavá faturar. Aos 10 do segundo tempo, Nílton Santos passa para Pelé, que dá um chapéu em Bergmark na meia-lua e, de pé direito, faz um dos gols mais lindos da história. Aos 23, Zagallo dá um cutuco por baixo de Svensson e aumenta a vantagem para 4 x 1. A Suécia diminuiu com Simonsson, aos 35. Mas aos 45, Nílton Santos cruzou no meio da área para Pelé, que cabeceou e encobriu Svensson. Enfim, Brasil campeão do mundo!

Fichas técnicas de todos os jogos

Brasil 3 x 0 Áustria (8/6/1958)
Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Áustria: Szanwald; Halla, Swoboda e Hanappi; Happel e Koller; Horak, Senekowitsch, Buzek, Alfred Körner e Schleger. Técnico: Karl Argauer. Arbitragem: Maurice Guige (França), auxiliado por Jan Bronkhorst (Holanda) e Albert Dusch (Alemanha). Público: 25.000. Gols: Mazzola, aos 38' do 1º e aos 44' do 2º; Nilton Santos, aos 4' do 2º. Local: Rimnersvallen, em Uddevalla.

Brasil 0 x 0 Inglaterra (11/6/1958)
Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Inglaterra: McDonald; Howe e Banks; Clamp, Wright e Slater; Douglas, Robson, Kevan, Haynes e A'Court. Técnico: Walter Winterbottom. Arbitragem: Albert Dusch (Alemanha), auxiliado por Bertil Loeoew (Suécia) e Istvan Zsolt (Hungria). Público: 30.000. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.

Brasil 2 x 0 União Soviética (15/6/1958)
Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. União Soviética: Yashin; Kesarev, Kuznetsov e Voinov; Krijevski e Tsarev; Aleksander Ivanov, Valentin Ivanov, Simonian, Igor Netto e Ilyin. Técnico: Gavril Katchaline. Arbitragem: Maurice Guigue (França), auxiliado por Birger Nielsen (Noruega) e Carl Jorgensen (Dinamarca). Público: 50.000. Gols: Vavá, aos 3' do 1º e aos 32' do 2º. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.

Brasil 1 x 0 País de Gales (19/6/1958)
Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Mazzola, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. País de Gales: Kelsey; Williams e Hopkins; Sullivan, Mel Charles e Bowen; Medwin, Hewitt, Webster, Allchurch e Jones. Técnico: Jimmy Murphy. Arbitragem: Friedrich Seipelt (Áustria), auxiliado por Albert Dusch (Alemanha) e Maurice Guigue (França). Público: 25.000. Gol: Pelé, aos 28' do 2º. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.

Brasil 5 x 2 França (24/6/1958)
Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. França: Abbes; Kaelbel e Lerond; Penverne, Jonquet e Marcel; Wisnieski, Fontaine, Kopa, Piantoni e Vincent. Técnico: Albert Batteaux. Arbitragem: Benjamin Griffiths (País de Gales), auxiliado por Raymon Wyssling (Suíça) e Reginald Leafe (Inglaterra). Gols: Vavá (B), aos 2' do 1º; Fontaine (F), aos 9' do 1º; Didi (B), aos 39' do 1º; Pelé (B), aos 8', 19' e 31' do 2º; Piantoni (F), aos 38' do 2º. Local: Rassunda Stadion, em Estocolmo.

Brasil 5 x 2 Suécia (29/6/1958)
Brasil:
Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Suécia: Karl Svensson; Bergmark e Axbom; Börjesson; Gustavsson e Parling; Hamrin, Gren, Simonsson, Liedholm e Skoglund. Técnico: George Raynor. Arbitragem: Maurice Guigue (França), auxiliado por Albert Dusch (Alemanha) e Juan Gardeazabal (Espanha). Público: 51.800. Gols: Liedholm (S), aos 4' do 1º; Vavá (B), aos 9' e aos 32' do 1º; Pelé (B), aos 10' e aos 45' do 2º; Zagallo (B), aos 23' do 2º; Simonsson (S), aos 35' do 2º. Local: Rassunda Stadion, em Estocolmo.

Os heróis e como estavam à época

Bellini (Hideraldo Luís Bellini)
- 28 anos, paulista de Itapira, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1952, 1956 e 1958, da Copa Roca de 1957, do Torneio RJ/SP de 1958 e da Taça Oswaldo Cruz de 1958.

Castilho (Carlos José Castilho) - 30 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Fluminense. Campeão carioca de 1951, e do Torneio RJ/SP de 1957.

De Sordi (Newton De Sordi) - 27 anos, paulista de Piracicaba, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1953 e 1957.

Dida (Edivaldo Alves de Santa Rosa) - 24 anos, alagoano de Maceió, jogava no Flamengo. Campeão alagoano de 1952 (pelo CSA), e carioca de 1953, 1954 e 1955.

Didi (Valdir Pereira) - 28 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1951 (pelo Fluminense) e 1957.

Dino Sani - 26 anos, paulista de São Paulo, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1957 e da Taça Oswaldo Cruz de 1958.

Djalma Santos (Djalma dos Santos) - 29 anos, paulista de São Paulo, jogava na Portuguesa. Campeão do Torneio RJ/SP de 1952 e 1955, e pan-americano de 1952.

Garrincha (Manuel Francisco dos Santos) - 24 anos, fluminense de Pau Grande, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1957.

Gilmar (Gilmar dos Santos Neves) - 27 anos, paulista de Santos, jogava no Corinthians. Campeão paulista de 1951, 1952 e 1954, e do Torneio RJ/SP de 1953 e 1954.

Joel (Joel Antônio Martins) - 26 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Flamengo. Campeão carioca de 1953, 1955 e 1957.

Mauro (Mauro Ramos de Oliveira) - 27 anos, mineiro de Poços de Caldas, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1948, 1949, 1953 e 1957, e da Copa América de 1949.

Mazzola (José João Altafini) - 19 anos, paulista de Piracicaba, jogava no Palmeiras.

Moacir (Moacir Claudino Pinto) - 22 anos, paulista de São Paulo, jogava no Flamengo.

Nílton Santos (Nílton dos Santos) - 33 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1948 e 1957, sul-americano de seleções de 1949 e pan-americano de 1952.

Oreco (Waldemar Rodrigues Martins) - 26 anos, gaúcho de Santa Maria, jogava no Corinthians. Campeão gaúcho de 1950, 1951, 1952, 1953 e 1955 (sempre pelo Internacional), e pan-americano de 1956.

Orlando (Orlando Peçanha de Carvalho) - 22 anos, pernambucano do Recife, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1956 e 1958, e do Torneio RJ/SP de 1958.

Pelé (Edson Arantes do Nascimento) - 17 anos, mineiro de Três Corações, jogava no Santos. Campeão paulista em 1958.

Pepe (José Macia) - 23 anos, paulista de Santos, jogava no Santos. Campeão paulista de 1955, 1956 e 1958.

Vavá (Edvaldo Izídio Netto) - 23 anos, pernambucano do Recife, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1952, 1956 e 1958.

Zagallo (Mário Jorge Lobo Zagallo) - 26 anos, alagoano de Maceió, jogava no Flamengo. Campeão carioca de 1953 e 1955.

Zito (José Ely de Miranda) - 25 anos, paulista de Roseira, jogava no Santos. Campeão paulista de 1955, 1956 e 1958.

Zózimo (Zózimo Alves Calazans) - 26 anos, baiano de Plataforma, jogava no Bangu. Campeão do Torneio Bernardo O'Higgins de 1955, da Copa Atlântica de 1956, da Taça Oswaldo Cruz de 1956 e 1958, e do Torneio do Rio de 1957.

Comissão técnica de 1958

Chefe da delegação: Paulo Machado de Carvalho

Técnico: Vicente Ítalo Feola

Supervisor: Carlos Nascimento

Médico: Dr. Hilton Gosling

Preparador físico: Paulo Amaral

Psicólogo: Professor Cavalhares

Dentista: Dr. Mário Trigo

Massagista: Mário Américo


Crédito da foto: CBF News

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