Neste domingo celebraremos 50 anos de uma das maiores conquistas da história do futebol brasileiro, aquela que abriu caminho para todas as demais: a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Uma geração formada por jogadores extraordinários ganhou o planeta bola e entrou para a história. Vamos contar um pouco desta história.
Para buscar a classificação à sexta Copa do Mundo seguida e ser o único país a participar de todos os Mundiais, o Brasil teve como homem fundamental na construção deste plano Paulo Machado de Carvalho, empresário paulista que, em 1957, apresentou à CBD um plano sério, que acabava com a bagunça improvisada dos anos anteriores. Seus auxiliares neste plano eram Flávio Iazetti, Paulo Planet Buarque e Art Silva. A CBD, a partir da posse de João Havelange na presidência, em 14 de janeiro de 1958, aprovou o Plano Paulo Machado de Carvalho. Vicente Feola, Carlos Nascimento e José de Almeida compunham a comissão técnica.
Nas eliminatórias da América do Sul, o Brasil caiu no Grupo A, com Peru e Venezuela. O campeão estaria na Suécia em 1958. A Venezuela desistiu e a disputa ficou direta entre Brasil e Peru, em duas partidas. A primeira foi em 14 de abril de 1957, no Nacional de Lima. Terry abriu o placar para os peruanos aos 37 minutos do primeiro tempo, mas Índio empatou aos 3 do segundo. O jogo de volta foi exatamente uma semana depois, no Rio de Janeiro, em um Maracanã com 120 mil fãs. Não foi uma partida fácil, embora a vantagem fosse nossa desde os 11 minutos de bola em jogo, em cobrança de falta cobrada por Didi, a famosa "folha seca".
Classificada, a Seleção ainda sofria com alguns apuros, mesmo com o Plano Paulo Machado de Carvalho em ação. Didi quase ficou fora da Copa pois o auxiliar Moacir o acusara de não se esforçar nos treinamentos. À revista Manchete Esportiva de 2 de maio de 1958, o talentoso jogador declarou sua mais famosa máxima, em resposta à acusação: "treino é treino, jogo é jogo". E Didi foi à Copa. O Plano Carvalho era pioneiro ao integrar um psicólogo à delegação enviada. Ele, um médico e odontólogo dedicariam-se à saúde física e mental dos jogadores. O embarque do Brasil foi às 17h de 24 de maio de 1958, em vôo da Panair, para dois amistosos na Itália.
Os jogos aconteceram em 29 de maio e 1 de junho, respectivamente contra Fiorentina e Internazionale, ambos vencidos por 4 x 0. Uma polêmica marcante neste período dos amistosos: Vicente Feola e Carlos Nascimento decidiram barrar Garrincha da Seleção, trocando-o por Joel. O Mané, para eles, abusou dos dribles na goleada sobre a Fiorentina. A gota d'água foi quando Garrincha, após driblar todo mundo, inclusive o goleiro, esperou um zagueiro chegar para, ao driblá-lo, aí sim mandar a bola para a rede. O estádio inteiro aplaudiu de pé o lance mágico, mas os responsáveis pela comissão técnica acharam isso uma irresponsabilidade inadmissível em uma Copa.
Os eleitos de Feola para a Copa do Mundo foram estes, com seus respectivos números e times à época: goleiros, Castilho (1, Fluminense) e Gilmar (3, Corinthians); defensores, Bellini (2, Vasco), Djalma Santos (4, Portuguesa), Oreco (8, Corinthians), Zózimo (9, Bangu), Nílton Santos (12, Botafogo), De Sordi (14, São Paulo) e Mauro (16, São Paulo); meias, Dino Sani (5, São Paulo), Didi (6, Botafogo), Moacir (13, Flamengo) e Zito (19, Santos); atacantes, Zagallo (7, Flamengo), Pelé (10, Santos), Garrincha (11, Botafogo), Joel (17, Flamengo), Mazzola (18, Palmeiras), Vavá (20, Vasco), Dida (21, Flamengo) e Pepe (22, Santos).
A estréia foi no dia 8 de junho, um domingo, pelo Grupo 4. Adversária: a Áustria. Local: o estádio Rimmerwallen, em Uddevalla. O Brasil saiu na frente aos 38 minutos do primeiro tempo, com Mazzola, que recebeu na direita um passe em profundidade de Didi e chutou rasteiro no canto de Szanwald. O segundo gol veio na etapa final. Nílton Santos tabelou com Mazzola pela direita e, por cobertura, ampliou a vantagem. E não adiantou Vicente Feola gritar "volta, Nilton!" para o lateral com fome de apoio. A vitória foi definida a partir de contra-ataque puxado por Didi, que tocou para Dida, na esquerda. Ele lançou Mazzola na direita e o atacante fez a dobradinha. Brasil 3 x 0.
Na quarta-feira, dia 11, o Nya Ullevi, em Gotemburgo, era o caminho para o segundo jogo da Seleção. Inglaterra pela frente. Os goleiros Gilmar e McDonald se sobressaíram e garantiram o 0 x 0 final. Domingo, dia 15, o mesmo estádio acompanhou o nascedouro do time que se consagraria em definitivo. Zito, Pelé e Garrincha foram as novidades de Feola contra a União Soviética. E deu certo. Vavá abriu o placar aos 2 minutos de jogo, chutando forte a bola passada por Didi. O mesmo Vavá definiu a vitória brasileira aos 20 da segunda etapa, ao tabelar com Pelé e chutar da entrada da área. Com 5 pontos, o Brasil classificou em primeiro no Grupo 4 para as quartas-de-final.
Quinta-feira, 19 de junho. O País de Gales era o oponente, novamente no Nya Ullevi. Garrincha e Pelé saíram jogando novamente, mas Vavá, destaque na partida anterior, estava fora, vetado pelo departamento médico. Mazzola retornava à equipe. Da parte galesa, John Charles, o craque do time, também não jogou por estar lesionado. Ao longo de toda a partida, a Seleção foi pressão pura. Mas a vitória foi magra, por um solitário gol. E gol de Pelé. E um golaço. Ele recebeu de Didi, que tocou de cabeça, e matou no peito, tirando dois galeses da jogada e tocando no cantinho direito. Melhor cartão de visitas não haveria. Brasil semifinalista da Copa do Mundo.
Terça-feira, 24 de junho. Brasil e França decidiriam uma vaga na grande decisão em grande partida no Rassunda, em Estocolmo. Vavá, logo no segundo minuto, nos colocou à frente, aproveitando falha da defesa francesa. Aos 9, empate com Just Fontaine, então marcando seu oitavo gol, o primeiro sofrido por Gilmar na Copa. Aos 26, a França perdeu Jonquet, machucado em dividida com Vavá. Aos 39, Didi desempatou de fora da área. No segundo tempo, Pelé faturou três vezes: aos 7, aproveitando rebote do goleiro Abbes; aos 19, concluindo passe de Garrincha; e aos 30, em chute da entrada da área. Piantoni ainda diminuiu aos 37. Brasil 5 x 2, Brasil finalista da Copa.
Chegou então o domingo, 29 de junho de 1958. E logo quem enfrentaríamos na final? Justamente a Suécia, anfitriã da competição. Ela jogava de amarelo, assim como o Brasil. Por sorteio, os anfitriões jogaram com a camisa amarela. Nossa Seleção jogou de azul, com camisas compradas pela delegação nas quais foram costurados os números e o símbolo da CBD. Justamente na final algo inédito acontecia: Brasil saindo atrás no marcador. Aos 4 minutos do primeiro tempo, Liedholm recebeu, tirou Orlando e Bellini da jogada e, sem muita força, tocou no canto direito de Gilmar. Prenúncio de novo vice-campeonato? Desta vez, não. A virada seria muito gostosa.
9 minutos de jogo. Garrincha cruzou da linha de fundo, Pelé chegou atrasado e, de carrinho, Vavá empatou para o Brasil. Aos 32, a virada começou com Djalma Santos, que tocou para o Mané, que deixou Axbom na saudade e cruzou para Vavá faturar. Aos 10 do segundo tempo, Nílton Santos passa para Pelé, que dá um chapéu em Bergmark na meia-lua e, de pé direito, faz um dos gols mais lindos da história. Aos 23, Zagallo dá um cutuco por baixo de Svensson e aumenta a vantagem para 4 x 1. A Suécia diminuiu com Simonsson, aos 35. Mas aos 45, Nílton Santos cruzou no meio da área para Pelé, que cabeceou e encobriu Svensson. Enfim, Brasil campeão do mundo!
Fichas técnicas de todos os jogos
Brasil 3 x 0 Áustria (8/6/1958)
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Áustria: Szanwald; Halla, Swoboda e Hanappi; Happel e Koller; Horak, Senekowitsch, Buzek, Alfred Körner e Schleger. Técnico: Karl Argauer. Arbitragem: Maurice Guige (França), auxiliado por Jan Bronkhorst (Holanda) e Albert Dusch (Alemanha). Público: 25.000. Gols: Mazzola, aos 38' do 1º e aos 44' do 2º; Nilton Santos, aos 4' do 2º. Local: Rimnersvallen, em Uddevalla.
Brasil 0 x 0 Inglaterra (11/6/1958)
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Inglaterra: McDonald; Howe e Banks; Clamp, Wright e Slater; Douglas, Robson, Kevan, Haynes e A'Court. Técnico: Walter Winterbottom. Arbitragem: Albert Dusch (Alemanha), auxiliado por Bertil Loeoew (Suécia) e Istvan Zsolt (Hungria). Público: 30.000. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.
Brasil 2 x 0 União Soviética (15/6/1958)
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. União Soviética: Yashin; Kesarev, Kuznetsov e Voinov; Krijevski e Tsarev; Aleksander Ivanov, Valentin Ivanov, Simonian, Igor Netto e Ilyin. Técnico: Gavril Katchaline. Arbitragem: Maurice Guigue (França), auxiliado por Birger Nielsen (Noruega) e Carl Jorgensen (Dinamarca). Público: 50.000. Gols: Vavá, aos 3' do 1º e aos 32' do 2º. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.
Brasil 1 x 0 País de Gales (19/6/1958)
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Mazzola, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. País de Gales: Kelsey; Williams e Hopkins; Sullivan, Mel Charles e Bowen; Medwin, Hewitt, Webster, Allchurch e Jones. Técnico: Jimmy Murphy. Arbitragem: Friedrich Seipelt (Áustria), auxiliado por Albert Dusch (Alemanha) e Maurice Guigue (França). Público: 25.000. Gol: Pelé, aos 28' do 2º. Local: Nya Ullevi Stadion, em Gotemburgo.
Brasil 5 x 2 França (24/6/1958)
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. França: Abbes; Kaelbel e Lerond; Penverne, Jonquet e Marcel; Wisnieski, Fontaine, Kopa, Piantoni e Vincent. Técnico: Albert Batteaux. Arbitragem: Benjamin Griffiths (País de Gales), auxiliado por Raymon Wyssling (Suíça) e Reginald Leafe (Inglaterra). Gols: Vavá (B), aos 2' do 1º; Fontaine (F), aos 9' do 1º; Didi (B), aos 39' do 1º; Pelé (B), aos 8', 19' e 31' do 2º; Piantoni (F), aos 38' do 2º. Local: Rassunda Stadion, em Estocolmo.
Brasil 5 x 2 Suécia (29/6/1958)
Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola. Suécia: Karl Svensson; Bergmark e Axbom; Börjesson; Gustavsson e Parling; Hamrin, Gren, Simonsson, Liedholm e Skoglund. Técnico: George Raynor. Arbitragem: Maurice Guigue (França), auxiliado por Albert Dusch (Alemanha) e Juan Gardeazabal (Espanha). Público: 51.800. Gols: Liedholm (S), aos 4' do 1º; Vavá (B), aos 9' e aos 32' do 1º; Pelé (B), aos 10' e aos 45' do 2º; Zagallo (B), aos 23' do 2º; Simonsson (S), aos 35' do 2º. Local: Rassunda Stadion, em Estocolmo.
Os heróis e como estavam à época
Bellini (Hideraldo Luís Bellini) - 28 anos, paulista de Itapira, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1952, 1956 e 1958, da Copa Roca de 1957, do Torneio RJ/SP de 1958 e da Taça Oswaldo Cruz de 1958.
Castilho (Carlos José Castilho) - 30 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Fluminense. Campeão carioca de 1951, e do Torneio RJ/SP de 1957.
De Sordi (Newton De Sordi) - 27 anos, paulista de Piracicaba, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1953 e 1957.
Dida (Edivaldo Alves de Santa Rosa) - 24 anos, alagoano de Maceió, jogava no Flamengo. Campeão alagoano de 1952 (pelo CSA), e carioca de 1953, 1954 e 1955.
Didi (Valdir Pereira) - 28 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1951 (pelo Fluminense) e 1957.
Dino Sani - 26 anos, paulista de São Paulo, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1957 e da Taça Oswaldo Cruz de 1958.
Djalma Santos (Djalma dos Santos) - 29 anos, paulista de São Paulo, jogava na Portuguesa. Campeão do Torneio RJ/SP de 1952 e 1955, e pan-americano de 1952.
Garrincha (Manuel Francisco dos Santos) - 24 anos, fluminense de Pau Grande, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1957.
Gilmar (Gilmar dos Santos Neves) - 27 anos, paulista de Santos, jogava no Corinthians. Campeão paulista de 1951, 1952 e 1954, e do Torneio RJ/SP de 1953 e 1954.
Joel (Joel Antônio Martins) - 26 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Flamengo. Campeão carioca de 1953, 1955 e 1957.
Mauro (Mauro Ramos de Oliveira) - 27 anos, mineiro de Poços de Caldas, jogava no São Paulo. Campeão paulista de 1948, 1949, 1953 e 1957, e da Copa América de 1949.
Mazzola (José João Altafini) - 19 anos, paulista de Piracicaba, jogava no Palmeiras.
Moacir (Moacir Claudino Pinto) - 22 anos, paulista de São Paulo, jogava no Flamengo.
Nílton Santos (Nílton dos Santos) - 33 anos, fluminense do Rio de Janeiro, jogava no Botafogo. Campeão carioca de 1948 e 1957, sul-americano de seleções de 1949 e pan-americano de 1952.
Oreco (Waldemar Rodrigues Martins) - 26 anos, gaúcho de Santa Maria, jogava no Corinthians. Campeão gaúcho de 1950, 1951, 1952, 1953 e 1955 (sempre pelo Internacional), e pan-americano de 1956.
Orlando (Orlando Peçanha de Carvalho) - 22 anos, pernambucano do Recife, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1956 e 1958, e do Torneio RJ/SP de 1958.
Pelé (Edson Arantes do Nascimento) - 17 anos, mineiro de Três Corações, jogava no Santos. Campeão paulista em 1958.
Pepe (José Macia) - 23 anos, paulista de Santos, jogava no Santos. Campeão paulista de 1955, 1956 e 1958.
Vavá (Edvaldo Izídio Netto) - 23 anos, pernambucano do Recife, jogava no Vasco. Campeão carioca de 1952, 1956 e 1958.
Zagallo (Mário Jorge Lobo Zagallo) - 26 anos, alagoano de Maceió, jogava no Flamengo. Campeão carioca de 1953 e 1955.
Zito (José Ely de Miranda) - 25 anos, paulista de Roseira, jogava no Santos. Campeão paulista de 1955, 1956 e 1958.
Zózimo (Zózimo Alves Calazans) - 26 anos, baiano de Plataforma, jogava no Bangu. Campeão do Torneio Bernardo O'Higgins de 1955, da Copa Atlântica de 1956, da Taça Oswaldo Cruz de 1956 e 1958, e do Torneio do Rio de 1957.