Que bela festa fez a torcida do Fluminense minutos antes do jogo. Um espetáculo jamais visto no Maracanã por apenas uma torcida. Fogos tricolores iluminaram o céu, ao mesmo tempo em que nas arquibancadas os torcedores acendiam luzes verdes e vermelhas, formando a palavra Fluminense. Eu estou acostumada a ir aos jogos no Maracanã e confesso que nunca vi coisa igual. E também nunca vi tanto tricolor junto.
A torcida se uniu de verdade. Torcedores dos quatro cantos do Brasil e até do exterior vieram ao Rio só para o jogo. A cidade estava vestida para a festa. Nas janelas, nos sinais de trânsito, era bandeira do Fluminense por todo lado. Tirando os rubro-negros – que até fundaram a LDU (Liga Dos Urubus) -, as demais torcidas estavam apoiando o Flu. Apesar da marra de Renato Gaúcho, o time não provoca tanta rivalidade como Flamengo e Vasco.
Depois da queima de fogos veio a fumaça. O campo ficou encoberto por alguns minutos, não dava para enxergar nada. Quando o jogo começou, a LDU mostrou que não estava para brincadeira e marcou logo aos cinco minutos. Na véspera, Renato Gaúcho havia falado numa entrevista que, se o Fluminense precisasse fazer dois gols faria, se precisasse de quatro faria, de dez faria.
Pois acho que os jogadores levaram a conversa muito a sério. Não vi o time partindo pra cima, parecia que estava achando que o gol sairia quando eles bem quisessem. E eu tive essa impressão não só no início, mas durante boa parte do jogo. E a torcida, onde estava nessa hora? Acho que a festa de recepção cansou. O Maracanã, lotado, ficou calado praticamente os cento e vinte minutos de bola rolando. Estava dando nervoso. Eles comemoravam o gol e logo se calavam.
Conversando com amigos tricolores, eles alegaram que o jogo estava tenso demais. Concordo. Mas o papel da torcida é cantar, gritar, incentivar o tempo todo. Aí que está o diferencial da torcida do Flamengo. Podem dizer o que quiserem, mas animação não falta àqueles torcedores. É batucada, música do início ao fim do jogo. E quando os jogadores parecem desanimados, cansados – como no jogo em questão -, aí que eles gritam mesmo, pedindo raça. Senti muita falta disso.
Os jogadores, com certeza, devem ter sentido também. O time jogava em marcha lenta. Thiago Silva não fez jus ao título de “melhor zagueiro do Brasil”, como cantam os tricolores. Chegava sempre atrasado nas marcações. Fernando Henrique parecia assustado, mal se mexia. E num lance perigoso ficou brincando com a bola pertinho da área e de um jogador da LDU.
Já o ataque... Washington fez o que vinha fazendo nos últimos jogos, ou seja, muito pouco. Ah, e ainda perdeu um gol feito logo no início. Nem Conca jogou o que vinha jogando. Já Thiago Neves carregou o time nas costas e fez os três gols da partida. Sem dúvida, o herói do jogo, apesar de ter perdido um pênalti decisivo. Gabriel deixou muito a desejar ali na lateral. Em vez de abrir, ficava fechado, sem dar alternativa para a armação das jogadas.
Dodô entrou no segundo tempo e pouco fez. Tirando uma bola na trave, foi totalmente apático. Apatia, aliás, demonstrada até depois dos gols marcados, era o único no banco que não comemorava. Uma atitude totalmente antidesportiva. Afinal de contas, ele veste (por enquanto) a camisa tricolor, e deve pelo menos fingir que tem algum apreço por ela.
A arbitragem é um capítulo à parte. A atuação de Héctor Baldassi não estava à altura da importância do jogo. Primeiro, ele deixou o jogo correr solto. Não marcava faltas claras dos dois lados. Cada tiro de meta batido pelo goleiro Cevallos demorava trinta segundos. E o árbitro não chamou a atenção dele em momento algum. Depois, Washington foi claramente derrubado na área, e o senhor Baldassi não marcou nada. O erro deixou o jogador do Fluminense desesperado, ele ficou se debatendo no gramado, com toda razão. Na prorrogação, a LDU fez um gol em posição legal, mas foi marcado impedimento.
Na cobrança de pênaltis, um lance curioso. O árbitro autorizou a cobrança de Thiago Neves. Ele e o goleiro estavam posicionados, mas Cevallos achou que o atacante estava demorando muito para bater (acho que ele esqueceu o tempo que seus tiros de meta levavam para serem batidos). Aí, o goleiro saiu da posição e foi reclamar com o árbitro. Nesse momento, Thiago Neves chutou para o gol. E o árbitro mandou voltar. Ora, se ele já havia autorizado, azar do goleiro que saiu do lugar. Sem dúvida, é um lance a ser analisado pelos especialistas no assunto, o que não é o meu caso. Estou apenas registrando minha estranheza em relação ao fato.
Bom, o fim da história todo mundo sabe. Os três melhores batedores do Fluminense erraram (Conca, Thiago Neves e Washington), e o sonho do título inédito foi adiado. Mas o time saiu de campo aplaudido. Assim que o jogo acabou, eu entrevistei meia dúzia de torcedores, que fizeram questão de elogiar a luta do time. Não houve aquela revolta, comum em casos de tamanha decepção. Melhor para os torcedores, que já estavam sofrendo o suficiente. Na coletiva, apenas Renato Gaúcho apareceu. Também rasgou elogios para sua equipe e disse que se considera um vencedor, e até os vencedores são nocauteados às vezes.
Realmente, a palavra adequada para definir a noite do dia 2 de julho para os tricolores é nocaute. Não preciso nem dizer que, no dia seguinte, o que mais se via nas ruas era rubro-negro com a camisa do Flamengo...