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Ademir Menezes (1922-1996)

Enquanto Ademir Menezes, Mestre Ademir / é como um Gonçalves
Dias / no exílio da minha memória / fazendo gol que não tem fim


Em meados dos anos 30 do século passado, na recifense praia do Pina, Ademir Marques de Menezes era colegial de espinha no rosto, queixo avantajado, cabelo repartido ao meio e fama nas peladas à beira-mar. Desde a adolescência, ele dava arrancadas fulminantes para o gol e batia forte e certeiro com os dois pés. O bairro do Pina, onde Ademir nasceu em 8 de novembro de 1922, era reduto de pescadores, biscateiros, mascates, lúmpens e desalentados econômicos. Nele, viviam os pais do craque, Otília e Antônio Muriçoca – ela, do lar, e o marido vendia carros, além de dirigir espontaneamente a divisão de remo do Sport Club do Recife. E a esta equipe da Ilha do Retiro o pai o levou para jogar futebol nas categorias de base.

No Sport, Ademir seria bicampeão juvenil em 38, atuando na meia-direita, posição apelidada ponta-de-lança graças à fúria com que ele cavava o gol. Mas o garoto do Pina, que chutava sem tomar distância, não se afastara dos estudos, e por isso, indevidamente, o inscreveram como acadêmico de medicina nos jogos universitários. Na Ilha do Retiro, ele foi juvenil até 1940, quando se profissionalizou. Com a ida do técnico uruguaio Ricardo Diez para o Sport, agarrou-se à vaga com ímpeto, fez-se astro e campeão estadual invicto em 41. A seguir, consagrou-se excursionando com o time ao centro-sul do Brasil – vencendo onze dos 17 jogos contra mineiros, paulistas, paranaenses, barrigas-verdes, gaúchos e cariocas. Em março de 42, diante do Vasco, esse filho de Muriçoca deu provas de que veio ao mundo para golear: fez três! E, no ato, o clube de São Januário comprou o seu passe – pagando-lhe, inclusive, luvas, soma contratual até ali inédita nas tenebrosas transações do futebol.

Nesse 1942, Ademir Menezes jogou em todas as posições do ataque vascaíno. A seguir, ganharia pelo escrete carioca o campeonato nacional de selecionados estaduais. Repetiu isso em 44 e virou herói no País – para homenageá-lo, as crianças recebiam o seu nome... Em 45, além de ser campeão invicto no estadual carioca pelo Vasco, na seleção brasileira ele compôs com Tesourinha, Zizinho, Leônidas e Heleno o melhor ataque mundial do século 20. E se tornou a estrela maior e mais luzente do Expresso da Vitória de São Januário.

Só que em 1946 o técnico frasista Gentil Cardoso o exigiu ao Fluminense. E, endividado, o tricolor das Laranjeiras fez-se supercampeão, sendo Ademir e o seu conterrâneo Orlando Pingo-de-Ouro os ases do certame estadual. O Vasco ficou na saudade até 48 e o readquiriu para ganhar o sul-americano de clubes. Com o Expresso da Vitória refeito, o time cruzmaltino chegou aos títulos de 1949, 50 e 52 – com Ademir sendo o artilheiro do Rio nesses dois primeiros títulos. No clube e nas seleções, o recifense recebeu os passes precisos e as parcerias de Jair, Danilo, Tesourinha, Heleno, Ipojucan e Maneca.

Pari-passu, ele legou ao Vasco inúmeros torneios e aos cariocas duas taças do campeonato nacional de seleções. Ao Brasil, Ademir deu os sul e pan-americanos de 1949 e 52, afora as copas Roca, Rio Branco e Oswaldo Cruz – uma vez cada. Por ironia do destino, a sua mágoa maior foi perder o Mundial de 50, do qual saiu goleador principal com 9 tentos. E eleito – na mídia e no coração da massa – como o melhor centroavante dessa Copa do Mundo de tristeza. Ao todo, pelo selecionado brasileiro, Ademir Menezes participou de 41 jogos, marcando 35 gols.

Em 1954, devido às contusões, ele reduziu a velocidade e perdeu a fome de gol, que o faziam ser caçado em campo, ao ponto de fraturar a perna. Em 51, contra o América recifense, um carrinho de Astrogildo o engessaria de novo. Embora tivesse físico, 1,78 m e muita coragem, Ademir não revidava pontapé. Ele encarnou o fair-play e foi um cidadão talhado para o convívio humano. E dizia que, dos seus marcadores, só os flamenguistas Bria e Jadir foram adversários leais.

Após o estadual de 1955, ele disse ao Vasco que ia parar – largo a bola antes que ela me deixe, pensou a frase que diria adiante. O clube, no entanto, pediu que adiasse a saída, mas Ademir, amadoristicamente, retornou ao Sport Club do Recife, onde iniciara a trajetória. Todavia, com alguns jogos no rubro-negro de Pernambuco, encerrou em definitivo a carreira gloriosa em 1956.

No Rio, ele seria cronista esportivo da Rádio Mauá e autor de coluna sobre futebol no jornal O Dia. Paralelamente, teve uma sinecura no Instituto Brasileiro do Café-IBC. E aproveitou os anos 50 para romper o primeiro casamento, que lhe dera uma filha. Talvez – sabe-se lá – Ademir agiu assim por concluir que era bem mais feliz nos braços da bola que na desventura conjugal. Acontece...

Mas do Vasco ele não se separou jamais. Em 1967, foi técnico cruzmaltino e se deu mal. Esse vascaíno também era solidário com os amigos. Tanto que quando, na miséria, Garrincha doou-se à bebida, o ex-craque Ademir quis interná-lo em uma clínica. E Mané o agrediu a socos. Mesmo assim, o maior artilheiro do Vasco – sua média de gols (0,70) bate à de Roberto Dinamite (0,63) –, esquecendo essa crise do alcoólatra Garrincha, ainda foi ajudá-lo, em vão.

No romantismo que permeia o futebol dessa época, com capital sensitiva na cidade do Rio de Janeiro, Ademir fez tudo. E ficou no afeto de Zizinho e no imaginário do Brasil. Mas, para ele, o Mestre Ziza fora o craque do seu tempo. Tanto que, ao ouvir o rubro-negro escritor Ivan Soter contar que tremia ao vê-lo contra o Flamengo, disse humildemente: "Medo de mim? O bom era Zizinho..., dele você deveria ter medo". Contudo, esse temor fazia sentido: Ademir Queixada foi o carrasco do Flamengo, pois contra este adversário ele quase sempre balançava as redes. E, mesmo fora do Vasco no biênio 46/47, fez com que o time da Gávea fosse freguês vascaíno de 1945 a 51 – seis anos ao todo, um senhor jejum de vitória, convenhamos.

Outra do filho de Muriçoca fala de sua popularidade e está no livro "Anatomia de uma Derrota", dando que o laboratório Bayer fez enquete para saber quem seria o craque preferido dos brasileiros. Ademir Menezes teve "5.304.935 votos, quase um milhão e meio de votos a mais do que o total obtido por Getúlio Vargas" – este, o Presidente da República, eleito em 1950, três meses depois do Brasil perder Copa do Mundo no recém-inaugurado estádio municipal do Maracanã.

Finalmente, nos anos 80, aposentado do IBC e do jornalismo, Ademir Marques de Menezes curtiu – dessa feita feliz – o seu outro casamento, com Wilma. Isso até a morte no Rio de Janeiro, em 11 de maio de 1996. Para ele, o cronista poético Armando Nogueira fez na imprensa esta confissão que dignifica o ex-craque, o futebol e a literatura brasileira: "Hoje – coisas do tempo – que o futebol na minha vida é mais saudade que esperança, mestre Ademir costuma aparecer no telão das minhas insônias mais artilheiro que nunca. E com que alegria revejo, agora, aqueles gols arrebatadores que ele fazia com a veemência de um predestinado! Gols que ontem sangravam e que hoje só enternecem o meu coração".

Ao meu também, Poeta, ao meu também...

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